27 de jun de 2018

Ada Lovelace: quem foi a primeira programadora da história?

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Se é na tela de um computador ou de um celular que você está lendo este texto, muito disso se deve ao trabalho de Ada Lovelace: foi ela quem escreveu (ainda no século 19!) o primeiro código complexo de programação do mundo, influenciando, posteriormente, outros grandes nomes da ciência da computação, como o britânico Alan Turing. Mas, afinal, quem foi Ada e o que a levou a tão importante pioneirismo?

Ada Augusta Byron — o nome Lovelace foi adotado por ela depois do casamento com William King, conde de Lovelace — nasceu em Londres em 1815. Filha do excêntrico poeta Lord Byron, um dos maiores expoentes do romantismo inglês, e de Anne Isabella Milbanke, mulher da sociedade britânica, ela desfrutou de uma educação incomum para meninas de sua época. Sua mãe fazia parte da pequena parcela de mulheres daquele tempo com acesso ao ensino de matemática e se esforçou para que Ada trilhasse o mesmo caminho.

Muito desse esforço de Anne, na verdade, se deve ao seu casamento tumultuado com Lord Byron. Ada nunca chegou a conhecer o pai, já que foi levada para longe dele pela mãe quando tinha apenas cinco semanas de vida. A intenção de Anne era criar a filha o mais longe possível da personalidade emotiva de Byron, para que Ada não desenvolvesse o que ela considerava um temperamento “perigoso e potencialmente destrutivo”.

No entanto, foi a fusão desses dois gênios opostos — a precisão analítica das ciências exatas e a imaginação fértil de um notável romântico — que fez aflorar o brilhantismo de Ada, uma mente criativa estimulada ao interesse pela ciência e pela matemática. “Imaginação é a Faculdade da Descoberta. É o que penetra nos mundos invisíveis em torno de nós, os mundos da Ciência”, escreveria ela, em 1841.

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A linguagem de programação de Ada Lovelace

Ada Lovelace tinha apenas 17 anos quando foi apresentada, em uma festa que marcava seu début na sociedade britânica, ao inventor Charles Babbage. Na época, ele trabalhava em dois mecanismos, a máquina diferencial e a máquina analítica — esta última tinha todos os elementos essenciais de um computador moderno e é reconhecida hoje como o conceito do primeiro computador programável do mundo, apesar de nunca ter sido efetivamente construída por falta de recursos.

Os dois trocaram cartas por quase vinte anos, de 1835 a 1852. Nesse meio tempo, no começo da década de 1840, Babbage pediu a Ada que traduzisse do francês as anotações do matemático italiano Luigi Federico Menabrea sobre a máquina analítica. À tradução, ela adicionou notas que descreviam o funcionamento do mecanismo — comparando-o ao tear mecânico de Joseph-Marie Jacquard para explicar os padrões algébricos que podia tecer — e traçou um plano para que ele pudesse realizar cálculos, estabelecendo, assim, os códigos que marcariam a criação do primeiro programa de computador.

Entretanto, esse algoritmo, capaz de computar a sequência dos números de Bernoulli, não foi a única contribuição das anotações de Ada para a ciência da computação moderna. No artigo, intitulado “Rascunho da máquina analítica com notas da tradutora” e publicado em 1843, ela também registra a possibilidade de a invenção ser reprogramada para “atuar sobre outras coisas além dos números”, como a composição musical, imagética ou tudo “aquilo que os cérebros humanos acham difícil ou impossível trabalhar sem erros”.

Com isso, Ada já percebia que qualquer tipo de dado poderia ser computado e representado digitalmente. No livro Os Inovadores: Uma biografia da revolução digital, o pesquisador Walter Isaacson escreve que essa compreensão é o grande “salto conceitual” de “máquinas calculadoras” para o que hoje chamamos de computadores. “Ela percebeu que esses computadores seriam capazes de ser uma ferramenta para a imaginação humana”, conta Zoe Philpott, criadora de um espetáculo que une teatro e tecnologia para narrar a história de Ada, em sua participação em uma TED Talk em Bucareste, na Romênia.

De fato, Ada escreveu que a máquina analítica seria capaz de performar qualquer coisa que o ser humano soubesse como ordenar, prevendo o grande potencial daquela linguagem “nova, vasta e poderosa” que acabara de criar — além de iniciar um debate que se mostra mais atual do que nunca: seriam as máquinas capazes de pensarem por si mesmas? Segundo suas notas do século 19, não. “A máquina analítica não tem pretensões de originar nada”, foi o que ela concluiu na época.

Por que Ada Lovelace demorou tanto tempo para ser reconhecida?

Hoje muito se sabe sobre a vida e o trabalho de Ada Lovelace — basta uma busca simples pelo nome dela para encontrar diversos livros sobre sua biografia, inclusive para crianças, palestras como a de Zoe ou documentários como o produzido pela BBC com a matemática Hannah Fry. Entretanto, nem sempre foi assim. “Talvez a coisa mais incrível do trabalho de Ada com Charles Babbage em 1843 é até que ponto ele foi ignorado”, postula Zoe em sua conferência.

O documentário Calculating Ada, disponível na íntegra no YouTube

Segundo ela, um século se passou até que cientistas olhassem de novo para o documento produzido pela pensadora britânica, e foi o conterrâneo Alan Turing que o tomou como inspiração quando começou a trabalhar com os primeiros computadores modernos. Décadas mais tarde, o Departamento de Defesa dos EUA batizaria de “Ada” um novo código criado. Mesmo assim, conta Zoe, quanto mais se comentava sobre as descobertas de Ada, mais seu mérito era questionado, “porque ela era mulher — o que é irônico, pois naquela época [anos 1950] eram as mulheres que estavam escrevendo a maioria dos códigos”, diz.

Valerie Aurora, diretora da organização americana Ada Initiative, que incentiva o trabalho científico de mulheres, faz a mesma avaliação sobre o reconhecimento da grande contribuição de Ada Lovelace à ciência da computação. Em entrevista à revista The New Yorker, ela defende que “quando as pessoas perceberam o quão importante era a programação de computadores, houve (...) uma tentativa de recuperá-la como uma atividade masculina. Para manter essa riqueza e poder nas mãos de um homem, há uma reação para tentar redefini-la como algo que uma mulher não fez."

Não é à toa, portanto, que desde 2009 existe o Ada Lovelace Day, para celebrar as conquistas femininas na ciência, na tecnologia e na matemática. Comemorada na segunda semana de outubro todos os anos, a festividade foi criada pela ativista britânica Suw Charman-Anderson e reúne eventos no mundo todo, chamando a atenção para o número cada vez menor de mulheres ocupando cargos nessas áreas: em 1990, as mulheres na computação somavam 34%; em 2011, 27%, segundo o Census Bureau dos EUA.

No Brasil, a situação é ainda pior: segundo a Sociedade Brasileira de Computação, mulheres somam apenas 15% dos alunos em cursos como Ciências da Computação e Engenharia. No mercado nacional, apenas 17% do total de programadores são mulheres, segundo dados da ONU Mulheres.

Por isso, Valerie considera Ada Lovelace como um exemplo “incomum”, porém fundamental. “Ela mostra o que as mulheres podem fazer quando lhes é dada uma oportunidade”, afirma em uma palestra sobre Ada no Stevens Institute of Technology, na cidade americana de Hoboken.

Nesse sentido, Zoe lembra de outras mulheres que fizeram história na computação, como Grace Hopper e sua “maravilhosa ideia de usar palavras na programação” para aproximá-la de um número maior de pessoas – mais uma evidência do impacto indelével das contribuições femininas para o progresso.

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