11 de set de 2018

Bancos e blockchain: como as grandes instituições trabalham com a tecnologia

Udacity Brasil

Até poucos anos atrás, blockchain ainda era uma palavra desconhecida. Hoje, porém, é cada vez mais raro encontrar alguém que desconheça totalmente o assunto. Mas, afinal, você sabe realmente o que isso significa? Para que serve? Como faz parte de seu dia a dia? E como os bancos a utilizam?

De maneira simplificada, blockchain é uma tecnologia que permite que informações digitais sejam distribuídas de maneira segura, sem serem copiadas. Ela funciona como um registro público digital e descentralizado. (Baixe aqui um ebook sobre o tema!)

Como o nome em inglês sugere, trata-se de uma cadeia de blocos que armazenam dados. Cada bloco tem um código único (chamado de "hash") que identifica o próprio bloco e seu conteúdo. Além disso, cada bloco também guarda um pedaço do código do bloco anterior que está ligado a ele – e isso faz parte da segurança do modelo.

Vídeo explica como blockchain funciona (em inglês)

Originalmente, o blockchain surgiu para a realização de transações com Bitcoin, uma criptomoeda. Mas o potencial dessa tecnologia é muito grande para diversos setores e, por isso mesmo, a tendência é que ela seja cada vez mais utilizada – inclusive pelos bancos tradicionais.

"A tecnologia permite que seja possível saber quem criou cada um dos registros e há uma chave para cada um deles. Essencialmente, o blockchain encadeia todos esses registros", explica em um TEDx Richie Etwaru, um dos primeiros CDOs (Chief Digital Officer) do mundo e atualmente CEO da organização Hu-manity.co.

"O blockchain geralmente existe naquilo que chamamos de 'comunidade'. Os participantes de determinada indústria irão todos operar na mesma cadeia, de modo que cada um tenha uma cópia das informações. Todos eles podem escrever no registro e compartilhar dados. Isso facilita transações. Haverá a cadeia da área de saúde, a dos serviços financeiros e de todas as outras indústrias", resume Etwaru.

A TEDx Talk de Richie Etwaru

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Por que blockchain importa?

O blockchain não apenas importa como deve ser parte importante do futuro das transações. Não é à toa que ela tem sido considerada por muitos como uma das maiores invenções desde a internet.

Um levantamento da consultoria Accenture revelou que blockchain é uma das prioridades e um dos tópicos mais comentados na indústria de serviços financeiros hoje em dia. O estudo, feito com 32 profissionais de bancos comerciais, mostrou que nove a cada cada 10 executivos disseram que seus bancos já estão explorando o uso de blockchain atualmente.

A Accenture prevê que, se bem adotada, essa tecnologia permitirá que os bancos processem os pagamentos com mais rapidez e precisão, reduzindo assim os custos de processamento das transações.

Porém, antes de atingir esse ideal, os bancos precisam construir toda a infraestrutura necessária para criar e operar uma verdadeira rede global usando soluções baseadas no blockchain.

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Bancos e blockchain: futuros melhores amigos?

Embora o blockchain tenha surgido com as transações de criptomoedas, em um modelo de dinheiro digital que poderia assustar os grandes bancos tradicionais, eles já perceberam que a tecnologia de cadeia de blocos pode ser mais útil do que ameaçadora.

Em entrevista à Udacity, Ricardo Polisel, gerente sênior da prática de IT Strategy da Accenture, explica que blockchain pode ter duas linhas de usos para os bancos:

  • Facilitar e acelerar as transações financeiras, sem necessidade de intermediários
  • Aumentar a eficiência do backoffice e reduzir fraudes

"Na linha de pagamentos de pessoa para pessoa, o blockchain tem um potencial enorme para os bancos. Hoje, por exemplo, fazemos TED quase em tempo real, mas ainda existe a limitação do horário comercial e dos dias de semana. A blockchain permite fazer esse tipo de transação diretamente, a qualquer momento, sem taxas, sem intermediários e até para outros países. O potencial é enorme", afirma Polisel.

Ele diz que também é útil empregar a tecnologia na "retaguarda" dos bancos, como forma de diminuir custos operacionais em até 40% ou 50%. "Quando é necessário fazer conciliação bancária, por exemplo, entre vários bancos participantes, o processo é muito trabalhoso. Se o blockchain for usado para isso, fica bem mais rápido", diz o especialista.

"Além disso, se por meio do blockchain os bancos conseguirem compartilhar informações sensíveis de maneira controlada e criptografada, podem diminuir drasticamente as fraudes", completa ele.

Os desafios do blockchain para bancos

Os bancos já entenderam que blockchain é uma tendência que veio para ficar e para facilitar os negócios. Mas a adoção dessa tecnologia deve ser rápida, porque esse é o momento em que estão acontecendo as definições dos padrões que serão adotados.

"Alguns grandes bancos vão sair na frente com um padrão e os demais terão de se adaptar para acompanhar", explica Ricardo Polisel. O relatório da Accenture revela que uma rede eficaz de blockchain para bancos deve ter duas características importantes:

  • Incluir os direitos, obrigações, controles e padrões necessários
  • Oferecer um processo de integração rápido e eficiente com os novos integrantes da rede – sejam eles outros bancos ou pessoas físicas

O documento da Accenture classifica o futuro da blockchain para os bancos como uma "estrada promissora". "Por ser uma plataforma confiável, de código aberto e que transmite dados e valores com segurança em tempo real, ela pode ajudar os bancos não apenas a reduzir o custo do processamento de pagamentos, mas também a criar novos produtos e serviços que podem gerar novos fluxos de receita importantes", conclui a consultoria.

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Blockchain: as tendências para bancos

Um outro relatório, produzido pelo Business Insider Intelligence, fornece detalhes sobre os principais experimentos baseados em blockchain pelos bancos globais. Estas são as principais tendências identificadas no levantamento:

  • A maioria dos bancos está explorando o uso de blockchain para otimizar processos e cortar custos. Ao mesmo tempo, eles buscam ter maior competitividade frente às fintechs e também desejam usar a tecnologia para criar novos modelos de negócios

  • Os reguladores do setor bancário estão cada vez mais interessados na tecnologia blockchain e estão trabalhando ao lado de grandes bancos para desenvolver estruturas regulatórias

  • Soluções baseadas em blockchain começarão a surgir em diferentes áreas de serviços financeiros. As iniciativas mais bem-sucedidas resolverão problemas específicos dos bancos e atrairão uma rede grande o suficiente para gerar benefícios generalizados

Blockchain na prática para o setor bancário

A gigante de tecnologia IBM acredita que a blockchain apresenta inúmeras oportunidades para transformar como as pessoas trocam valor. "Com tantos bancos e startups interessados ​​em lucrar com o valor potencial da tecnologia blockchain, não é mais uma questão de se blockchain será usado no setor bancário, mas quando e como", afirma a empresa.

Segundo Maurício Magaldi, líder de serviços de blockchain da IBM América Latina, os maiores bancos do Brasil já têm trocado experiências e estão se organizando e trabalhando em conjunto para entender as potencialidades. "O fato de ser uma tecnologia de rede implica em ter um acordo entre os participantes para convergir para um benefício comum", explica à Udacity.

"Há um outro aspecto que é a regulação dos bancos em todo o mundo: adotar tecnologias disruptivas em um mercado altamente regulado requer a participação do regulador. A partir do momento em que isso acontecer, a adoção de blockchain será mais rápida." Maurício Magaldi acredita que, no Brasil, o Banco Central irá regular os diferentes usos da blockchain – moedas digitais, meios de pagamento, entre outros.

Há ainda outro ponto essencial para que as novas peças do sistema funcionem: a aprovação do cliente. "Ainda não conhecemos todos os novos modelos de negócios que poderão surgir graças ao blockchain, mas todos eles passam por uma melhor experiência do usuário", defende Magaldi.

Blockchain e criptomoedas

A Bitcoin é a criptomoeda mais famosa do mundo e se relaciona com blockchain desde sua criação, em 2008. Naquele ano, Satoshi Nakamoto, pseudônimo utilizado pelo gênio, gênia ou gênios (ninguém sabe!), apresentou ao mundo num e-mail a primeira moeda descentralizada do mundo e o sistema que a faria funcionar. Logo depois, desapareceu.

Aos poucos, o ativo ganhou adeptos, primeiro apenas entre grandes conhecedores da internet e, depois do mainstream, quando passou a ser comercializada nas bolsas de valores. Ela ganhou as manchetes do noticiário mundial em 2017 por sua rápida valorização e, um ano depois, devido à intensa oscilação de seu valor. Atualmente, 1 Bitcoin custa pouco mais de 25 mil reais.

Além de servir como investimento, a moeda também funciona exatamente como moeda e pode ser usada para fazer pagamentos digitais ou compras – sem intermediários. Há uma porção de estabelecimentos e fornecedores de serviços que já aceitam normalmente essa criptomoeda, de estúdios de tatuagem a construtoras de imóveis.

É bom saber que o mundo das criptomoedas não se restringe ao Bitcoin e está em expansão. Você provavelmente ainda ouvirá falar muito nesses nomes, até porque muitas instituições financeiras já estão profundamente envolvidas com elas para diversos serviços.

  • Ethereum: criada pelo russo-canadense Vitalik Buterin, ela é a segunda maior criptomoeda do mundo. Ela conta com seu próprio blockchain, bastante popular entre empresas graças às funções como contratos inteligentes e espaço para programas mais complexos. No momento, 1 Ethereum (ETH) vale pouco mais de 1,1 mil reais.

  • Litecoin: também chamada de LTC, a moeda foi criada em 2011 pelo cientista da computação e ex-funcionário do Google Charlie Lee. Uma das principais diferenças em relação à Bitcoin é que a Litecoin é capaz de fazer transações até quatro vezes mais rápidas. Cada 1 LTC custa cerca de R$ 240 atualmente.

  • Ripple: ou XRP, é o nome tanto de uma moeda digital como de uma rede de pagamento, ambas lançadas em 2012. Grandes bancos, como Santander e UBS, têm adotado a tecnologia da Ripple para modernizar seus serviços, especialmente as transferências internacionais. Cada Ripple vale em torno de R$ 1,7 atualmente.

Blockchain e a demanda por mão de obra

Por ser muito nova e disruptiva, a tecnologia por trás de um sistema blockchain necessita de profissionais devidamente preparados para trabalhar com seus protocolos – os desenvolvedores, arquitetos e operadores de blockchain, como explica esse artigo da Udacity.

Mas esse tipo de mão de obra não é encontrada facilmente, já que os cursos mais tradicionais das universidades ainda não formam os alunos para lidar com esse tipo de tecnologia. Quem deseja trabalhar na área, portanto, precisa acompanhar o que há de mais moderno no mercado e estudar para adquirir as habilidades essenciais para iniciar nessa carreira promissora.

"O mercado já tem demanda por profissionais especializados em blockchain. Tanto empresas grandes como bancos precisam montar seus times e é muito difícil encontrar pessoas que dominam esse tipo de conhecimento", afirma Ricardo Polisel, gerente Sênior da Prática de IT Strategy da Accenture. "Não se trata de algo passageiro. Essa demanda por mão de obra tende a continuar aumentando", finaliza.

A boa notícia? Há poucos meses, a Udacity lançou seu próprio Nanodegree Desenvolvedor Blockchain. Mais uma chance de sair na frente e aproveitar as oportunidades que a revolução tecnológica oferece.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.