18 de jul de 2018

A carne artificial já é uma realidade – e seus criadores prometem melhorar o mundo

Udacity Brasil

Alimentos com aparência, cheiro, gosto e consistência de carne, mas produzidos (quase) sem a crueldade e as consequências para o meio ambiente resultantes da grande indústria da pecuária — algumas opções, inclusive, sem nenhum componente de origem animal. Essa é a proposta das startups que estão investindo na criação da carne artificial, feita em laboratório.

Batizada de carne limpa (em alusão à energia limpa), a invenção tem ganhado cada vez mais espaço em empresas do mundo todo. Sua primeira versão foi criada pelo cientista holandês Mark Post, na Universidade de Maastrich, em 2013. Naquele tempo, porém, a iniciativa inusitada e ousada (para dizer o mínimo) era muito cara: um hambúrguer chegou a custar mais de 300 mil dólares para ser produzido.

Não se pode dizer que hoje a técnica tenha se popularizado totalmente, mas os avanços na produção de carne artificial são muitos. Os custos (ainda altos) diminuíram, diversas empresas têm surgido no ramo e alguns produtos já chegam ao mercado — caso do Impossible Burger, da Impossible Foods, por exemplo. A carne limpa chama a atenção e o patrocínio de investidores de peso, como Bill Gates, e até mesmo de gigantes da indústria da carne “de verdade”, como a Tyson Foods.

Como é feita a carne artificial dentro de laboratórios

Em fevereiro, o setor de capital de risco da Tyson — conhecida pela produção de frango, salsicha e outras carnes — investiu mais de 2 bilhões de dólares na startup israelense Future Meat Technologies. “Com o tempo, [esses novos tipos de proteína] serão parte da história”, disse à revista Fast Company Justin Whitmore, vice-presidente de estratégia corporativa e diretor de sustentabilidade da empresa, que também tem participação na americana Memphis Meats, outra startup dedicada à carne artificial.

Qual é, então, a grande promessa dessa tecnologia e por que tanta gente tem apostado nisso? "Esses produtos são para pessoas que hoje comem carne produzida industrialmente”, explicou ao jornal The Guardian Bruce Friedrich, do Good Food Institute. Ao criar um produto que agrade não só aqueles que já se opõem ideologicamente ao consumo animal, como os veganos e vegetarianos, mas também os consumidores de carne, a expectativa é diminuir significativamente os danos causados pela indústria agropecuária.

Como é produzida a carne artificial?

Para atingir esse objetivo com sucesso — o que significa também produzir artificialmente uma carne o mais parecida possível com a carne “real” —, os pesquisadores da área têm se dedicado a duas técnicas diferentes. A mais comum utiliza células bovinas, reproduzindo-as em laboratório, mas equipes como a da Impossible Food conseguiram criar um produto totalmente à base de vegetais.

Nesse caso, o principal ingrediente para conferir à carne de laboratório um aspecto mais próximo do natural é uma proteína encontrada nas raízes da soja. Seu DNA é codificado por modificação genética e transformado em uma levedura que, fermentada, resulta na matéria prima para o Impossible Burger: uma grande quantidade de heme, a substância responsável pelo ferro da carne, o que lhe confere sabor e cheiro característicos.

A mesma técnica de fermentação da levedura pode ser usada para produzir versões de laboratório de outras proteínas de origem animal, como ovo e leite — aposta de startups do Vale do Silício, como a Perfect Day e a Clara Foods. Esta, sob o comando de Arturo Elizondo, quer colocar uma clara de ovo alternativa no mercado até o final de 2019. “A agricultura animal é incrivelmente insustentável”, justificou ele ao The Guardian.

No entanto, o método mais utilizado para a obtenção da carne artificial ainda depende de tecidos animais, por se basear na cultura de células de gado. Ainda assim, o impacto, em termos de exploração e sustentabilidade, parece menor, já que basta um conjunto de células para produzir uma grande quantidade de carne limpa a partir da reprodução delas em laboratório. “Com um pequeno pedaço de carne (...), uma vez que se tem uma linha de células, não é preciso voltar ao animal inicial", garante Mike Selden, CEO da empresa americana Finless Foods, em entrevista à Wired.

Nesse tipo de processo, a ideia é estimular as células a se reproduzirem como se ainda estivessem no corpo do animal. Sob condições adequadas e alimentadas com sais, açúcares e proteínas, elas podem se transformar em tecido conjuntivo, músculo e gordura. Esta última é o maior interesse de Yaakov Nahmias, da israelense Future Meat Technologies. “A maioria das empresas hoje está desenvolvendo células musculares, mas uma das coisas que faltam é a gordura. A gordura é o que dá à carne seu aroma e sabor distintos”, explicou à Fast Company.

A startup de Yaakov também pretende expandir a técnica para além dos laboratórios, defendendo que os produtores comecem a mudar da agricultura animal para a agricultura celular. O plano é fornecer a eles uma coleção de células, nutrientes e equipamentos biorreatores para cultivá-las. "Acredito que isso seja uma maneira razoável de realmente assumir e substituir esse setor de forma sustentável", defende o cientista.

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Os desafios da carne artificial

O maior vilão da produção de carne limpa a partir da cultura de células ainda é o alto custo: a proteína que as alimenta, por exemplo, é extraída de soros feitos de sangue animal (menos um ponto no quesito cruelty free), que são bastante caros. Além disso, não é barato manter o meio de crescimento da cultura, que tem que ser substituído conforme ela se expande. Para esse segundo problema, a Future Meat vem testando soluções, como um processo de recirculação semelhante ao dos nossos fígados e rins.

Outro desafio é ganhar a confiança do público. Para Joshua Tetrick, CEO da Just, a principal preocupação deve ser com o sabor. Já Linda Eatherton, diretora da agência de comunicação Ketchum, questiona a honestidade das empresas com relação ao processo de produção da carne de laboratório. “Minha maior preocupação são os consumidores chegarem às prateleiras e se perguntarem: o que é isso? Como foi feito?”, disse ao The Guardian. Entretanto, uma pesquisa da agência aponta que 62% dos americanos experimentaria comida produzida com tecnologia.

Bruce Friedrich, do Good Food Institute, acredita que colocar na balança os benefícios da carne artificial, em comparação com os produtos da indústria agropecuária, pode ter resultados positivos. “As pessoas estão comendo carne hoje com os olhos bem fechados. Ninguém quer sequer pensar em matadouros. Quando tivermos os dois produtos lado a lado, não acho que seja difícil persuadir as pessoas a mudarem”, disse, também em entrevista ao The Guardian.

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Planejamento para o futuro

É mesmo difícil defender a produção industrial de carne diante dos números que expõem os danos causados por ela: um quarto das terras do mundo é usado para pastagem; a produção de um quilo de carne pode consumir 1,8 mil litros de água; e a pecuária é responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases do efeito estufa — para citar só alguns. “A carne limpa é um conceito transformador”, afirma Yaakov.

Porém, ainda não há pesquisas conclusivas sobre os reais benefícios da carne de laboratório ao meio ambiente. A Just diz que seus produtos reduzem as emissões de carbono em 25% e o uso de água em 75%. Já a Impossible Foods garante que seu hambúrguer pode cortar a emissão de gases do efeito estufa em 87%. Outra vantagem seria a diminuição do risco de contaminação por bactérias, como a salmonela.

Enquanto as especulações abundam, o negócio da carne artificial cresce e tem tudo para conquistar espaço no mercado. Afinal, seus criadores não têm a intenção de acabar com uma paixão mundial, apenas torná-la mais viável. É o que postula Steve Myric, da Memphis Meats: “Nós reconhecemos que o mundo ama carne e que comê-la é um ato enraizado culturalmente. Não somos ativistas [contra a carne]. Só queremos fazer uma carne que é melhor”.

Com o crescimento populacional previsto – 9,8 bilhões de pessoas até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas – e do poder aquisitivo no mundo em desenvolvimento, estima-se que a demanda por carne também cresça. Encontrar uma maneira viável de atendê-la, financeira e eticamente, pode ser um ótimo negócio.

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