6 de nov de 2018

Como funciona o live streaming?

Udacity Brasil

Se um dia a possibilidade de assistir a vídeos live pela internet foi um sonho, faz tanto tempo que pouco nos lembramos. Plataformas como o Facebook, o Periscope e o YouTube já permitem que qualquer um faça uma transmissão ao vivo de vídeo – e você provavelmente já se irrita quando não encontra o bom link para isso.

A tecnologia por trás disso se chama streaming, e é a mesma que permite que você assista a um seriado da Netflix sem precisar baixar o arquivo para o seu computador. Por meio dela, os vídeos são enviados ao usuário em “pacotes” que não ficam gravados permanentemente em seu HD.

Quando você assiste a uma série na Netflix, por exemplo, é isso que acontece. A diferença é que o streaming ao vivo realiza todo o processo de captura, processamento e transmissão da imagem de maneira praticamente instantânea.

Como você pode imaginar, fazer com que um vídeo seja capturado pela sua câmera, convertido em dados digitais, enviado pela internet, desconvertido e exibido para alguém do outro lado do mundo em tempo real não é nada simples.

São vários os anos de inovação em hardware e software que tornam isso possível, e criam um enorme potencial para os negócios. A Amazon, por exemplo, conhecida pelas aquisições certeiras e domínio do mercado, em 2014 adquiriu a Twitch, uma plataforma que oferece streaming de games, por 970 milhões de dólares.

Na época da compra, a Twitch tinha 60 milhões de usuários por mês. Um ano depois, eles já ultrapassavam os 100 milhões. Em 2018, mais números grandiosos: são 15 milhões de usuários por dia e os jogos mais populares acumulam 356 milhões de horas assistidas.

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Como funciona o live streaming?

O processo todo começa, naturalmente, com a captura da imagem pela câmera de algum dispositivo — câmera, celular, webcam, etc. De acordo com Fábio Blanco, engenheiro de TI da FlixTV, a imagem então precisa ser convertida para um padrão digital que possa ser transmitido pela internet.

Esse processo acontece em várias etapas. O sinal pode sair da câmera por meio de uma saída SDI, NDI ou HDMI, por exemplo, e passar por uma placa de captura que então converte os dados da maneira adequada para transmissão via internet. Quem faz essa conversão é o “encoder”.

O encoder, segundo Fábio, basicamente transforma aqueles dados de vídeo e imagem em um formato que seja compatível com diversos dispositivos diferentes. Como a ideia é que aquela transmissão seja visível por um grande número de pessoas (que usarão dispositivos diferentes), essa parte garante a “acessibilidade” daquele conteúdo.

É nesse momento também que acontece a compressão do sinal. Se você captura uma imagem em resolução 4K mas sabe que quase ninguém vai conseguir assistir em 4K, pode comprimir a imagem para uma resolução menor. Essa parte, que também pode ser feita pelo encoder, faz com que os arquivos transmitidos sejam mais leves, o que ajuda a transmissão a funcionar melhor mesmo em conexões mais lentas.

Em alguns casos — por exemplo, na realização de uma transmissão de alta qualidade e com múltiplas câmeras — esse processo todo é feito no local. Existem equipamentos que são capazes de simultaneamente gerenciar os dados de diversas câmeras, e que dão ao usuário a capacidade de escolher qual imagem deve ser mostrada a cada momento da transmissão. Eles funcionam como os switchers da TV tradicional.

No entanto, se você for fazer uma transmissão ao vivo pelo Facebook ou pelo YouTube, o processo é mais simples. O seu celular manda os dados da câmera para a plataforma, que já cuida para que ele seja codificado de maneira que outros usuários da plataforma possam assistir sem problemas, na qualidade mais adequada à sua conexão.

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Qualidade versus velocidade no live streaming

Para que você possa assistir a um vídeo ao vivo, é necessário que parte desse vídeo seja carregado para o seu computador. Se as condições de conectividade forem ideais, todo o processo descrito acima acontece de maneira praticamente instantânea, e você consegue assistir à transmissão sem grandes atrasos.

Mas essas condições ideais são raras, e normalmente algum sacrifício precisa ser feito. Há duas soluções nesse caso: uma delas é diminuir a qualidade da transmissão, para que o tráfego de dados seja menor e, portanto, possa acontecer mais rapidamente. A outra é esperar para que mais do vídeo seja carregado antes que ele seja transmitido – mas com um atraso maior.

Geralmente, o que acontece é que os servidores da plataforma responsável pelo streaming vão fazendo essas decisões na hora, conforme a qualidade da sua conexão. Em vez de diminuir muito a qualidade do vídeo ou atrasá-lo demais, eles tentam encontrar um equilíbrio para que a transmissão chegue até você numa qualidade satisfatória e num tempo adequado.

Como funciona um streaming do lado do servidor?

Na parte de quem está transmitindo, de acordo com Fábio, é necessário ter um link dedicado de 3 Mbps (megabits por segundo) a 6 Mbps para garantir uma transmissão em Full HD. “O link tem que ser dedicado, porque assim a gente sabe que ele não tá concorrendo com outros serviços da mesma rede”, diz Fábio. “E a gente sempre pede o dobro [no caso, 12 Mbps], porque a conexão varia, oscila, então assim você garante que a qualidade não cai”, complementa.

Por conta dessa exigência, Fábio diz que o recomendado é que transmissões desse tipo sejam feitas a partir de conexões cabeadas (que são mais estáveis do que redes Wi-Fi). Caso isso não seja uma opção, o ideal é ter um roteador Wi-Fi de duas bandas, capaz de transmitir em 5 GHz. Isso porque a faixa de 5 GHz gera menos interferência e garante uma conectividade melhor. “O alcance dela é menor, mas dentro desse alcance ela é melhor”, diz.

Além de uma conexão robusta, uma transmissão ao vivo que se adeque às condições de conectividade do espectador exige algum poder computacional. Imagine o caso de uma transmissão em grande escala, na qual centenas de milhares de pessoas assistem ao mesmo tempo. E aí? Nesse caso, os recursos computacionais necessários para garantir uma experiência ótima a cada usuário aumentam muito.

Por isso, é mais comum que transmissões muito grandes sofram atrasos, quedas de qualidade ou mesmo indisponibilidade total do que as transmissões menores. Se você assistiu aos jogos da Copa do Mundo de 2018 por streaming, deve ter percebido que todo mundo gritava “Gol” segundos antes de que você visse o gol. Embora não alivie o irrito, essa é a explicação técnica para isso.

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Crescimento do live streaming

A FlixTV, empresa de Fábio, já tem 12 anos no mercado de streaming. O projeto da empresa foi o trabalho de conclusão de curso do seu MBA. “A gente já tinha certeza, naquela época, de que todas as mídias iam precisar convergir para a internet”, conta ele.

Ela começou como uma espécie de canal online de TV e teve mais de 100 programas rotativos, de programas de entrevista até shows de música. Com o tempo, no entanto, Fábio começou a perceber que essa área começava a abrir novos “fronts”: as empresas queriam começar a usar vídeo ao vivo para transmitir seus eventos, palestras e reuniões, e as pessoas queriam usar o recurso para transmitir eventos de suas próprias vidas.

“Com a entrada do YouTube e do Facebook [no mercado de streaming de vídeo ao vivo], as pessoas começaram a perceber que não precisavam de uma webTV. Elas mesmas poderiam ser o que hoje a gente chama de youtubers”, conta Fábio. “E as empresas entraram nessa também. Começaram a perceber que valia mais a pena investir em uma transmissão ao vivo de algo [feito] por elas próprias”, continua.

Segundo Fábio, esse setor empresarial é uma das principais fontes de receita atuais da FlixTV. No portfólio, constam transmissões feitas para empresas como Renner, Prudence e Planet Girls. “É um setor que tem crescido muito, e que ainda vai crescer mais”, considera.

Um dos fatores que devem contribuir para esse crescimento, na visão de Fábio, é a tecnologia de internet móvel de quinta geração, como é conhecida popularmente a rede 5G. Com sua chegada, que deve acontecer ao longo dos próximos anos, dispositivos móveis terão ao seu alcance uma rede com velocidades de upload e download muito maiores, o que permitirá transmitir imagens com mais qualidade e estabilidade.

“Hoje a gente transmite eventos de hipismo, por exemplo, e faz isso por meio de internet a rádio. O 5G vai ajudar bastante nisso”, diz Fábio. Segundo ele, a nova tecnologia de rede também deve trazer novas aplicações de streaming ao vivo de vídeo na agricultura. “Como 5G traz não só mais velocidade como menos latência [atraso na transmissão], a pessoa vai poder controlar seu trator pela internet, se quiser”, comenta.

E se hoje as pessoas já transmitem todo tipo de conteúdo de suas vidas ao vivo, a tendência é que com as redes 5G isso se torne ainda mais comum. “No futuro, vai ser tudo um grande Big Brother”, opina Fábio.

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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.