20 de jun de 2018

Segue pelo Waze: como o app usa dados e machine learning para mapear o mundo

Udacity Brasil

É praticamente impossível encontrar alguém atualmente nas grandes cidades que não conheça o Waze. O app sugere percursos de acordo com a situação do tráfego e ajuda motoristas a fugir de engarrafamentos. Não à toa, está entre os mais baixados do mundo e já se tornou indispensável para muitas pessoas.

No mapa do aplicativo, o usuário enxerga alertas de acidentes, perigos, engarrafamentos e presença de polícia, tudo compartilhado por outros milhões de motoristas em tempo real.

Além disso, o Waze ainda mostra os postos de combustível mais baratos ao longo da rota do usuário. E, quando conectado à conta do Facebook, o app também revela quais amigos estão dirigindo para o mesmo destino.

Como funciona o Waze?

Tudo começou em 2007 com os fundadores israelenses Ehud Shabtai, Amir Shinar e Uri Levine.

"Há duas coisas que movem um empreendedor: uma é paixão e a outra é ódio. Eu odeio congestionamentos", disse Levine em uma entrevista ao canal israelense J-TV. "Nosso time pensou que poderia mudar o mundo e ajudar todos os motoristas a evitar os congestionamentos. Isso foi o que nos motivou."

Desde sua fundação, o Waze levantou dezenas de milhões de dólares com grandes empresas do Vale do Silício e se expandiu ininterruptamente. O crescimento e a atividade da startup chamaram a atenção de um gigante da tecnologia – o Google, que se interessou em comprar a empresa.

A situação é considerada irônica por Noam Bardin, CEO do Waze desde 2009. Segundo ele comentou em uma palestra em São Paulo, o Google Maps quase acabou com o negócio do Waze quatro anos antes e, agora, o aplicativo está na sede da empresa, na Califórnia.

Foi em junho de 2013, por meio de um post no blog do Waze, que o CEO Noam Bardin anunciou publicamente a venda da companhia ao Google.

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"Larry Page, Brian McClendon e as equipes do Google Maps estão acompanhando nosso progresso de perto e estão empolgados com o que fizemos", escreveu Bardin. "O Google está comprometido em nos ajudar a atingir nosso objetivo comum e nos fornecer a independência e os recursos de que precisamos para ter sucesso".

Modelo de negócio

De acordo com a _Business Insider_, o valor da venda do Waze para o Google foi de 1,1 bilhão de dólares.

O atual modelo de negócio do Waze se baseia em publicidade, conforme explica Noam Bardin em entrevista ao The Wall Street Journal. O CEO afirma: "Nós temos uma plataforma de publicidade baseada em localização. Milhões e milhões de usuários usam o app todos os dias. Sabemos onde eles estão e aonde vão, e assim fornecemos informações sobre os locais que os cercam".

Bardin ressalta que os resultados têm sido interessantes, embora a empresa ainda esteja em processo de educação dos usuários sobre a publicidade baseada em localização. "Há um potencial tremendo e uma grande ânsia dos anunciantes em investir no mobile. Nós fornecemos uma abordagem muito interessante para isso", diz.

As grandes empresas já anunciam no Waze desde 2016. Agora, os pequenos negócios também terão a chance de aparecer nas telas dos usuários do app. Por meio do recém-lançado Waze Local, a startup visa, de maneira gradual, compreender as necessidades de anúncio das pequenas empresas.

Segundo disse Matt Phillips, que lidera a equipe do Waze Local, em entrevista ao TechCrunch, o Waze Local oferece aos pequenos anunciantes a oportunidade de aparecer nas listas de busca do Waze, além dos formatos de anúncio tradicionais no app, como o grande banner que surge sobre a tela quando o motorista está parado no trânsito ou o pin com o estabelecimento ao longo da rota.

A melhor notícia talvez seja que os anunciantes podem ver dados em tempo real sobre o desempenho de suas campanhas publicitárias. Os planos mais simples de anúncio têm preço inicial de US$ 2 por dia.

Segredos de quem sabe

Tamanho sucesso não acontece por acaso. O Waze é um case importante porque reúne uma série de características que o tornaram único e atrativo às grandes empresas de tecnologia.

Em um evento do Google em São Paulo, o CEO do Waze, Noam Bardin deu conselhos para startups inovarem de verdade – e fazerem a diferença em seu campo de atuação.

Para o início de qualquer startup, a escolha cautelosa dos investidores talvez seja um dos passos mais importantes. De acordo com Bardin, todo empreendedor depende muito dos investidores – principalmente os da primeira rodada. Portanto, esteja atento com a captação de recursos.

Assim que surgirem empresas interessadas em comprar a startup, garantir a independência do negócio também é uma ação fundamental. Dentro de grandes conglomerados, é comum que a cultura e os objetivos da empresa comprada sejam substituídos por aqueles da empresa que a adquiriu. Bardin afirma que, felizmente, no caso dele, a independência do Waze dentro do Google foi garantida pelo próprio Larry Page.

Além disso, entre seus conselhos para o sucesso das startups, o CEO do Waze também destaca a importância de ser apaixonado pelo produto, manter o foco em oferecer o melhor possível ao cliente e definir bem as prioridades da empresa.

Números relevantes

Os números relacionados ao Waze não deixam dúvida sobre o sucesso da empresa: o app é utilizado por motoristas em mais de 185 países e conta com 100 milhões de usuários globalmente. O crescimento é constante.

Num país de trânsito pesado – estima-se que paulistanos passem o equivalente a 45 dias por ano no trânsito –, a adoção entusiástica fez sentido.

"O Brasil é o principal mercado do Waze na América Latina e está entre os cinco principais países para o aplicativo em termos de usuários no mundo", revelou Leandro Esposito, Country Manager do Waze para o Brasil, em entrevista concedida à Udacity.

"O aplicativo tem sido um enorme sucesso no país desde o primeiro dia. Os brasileiros gastam muito tempo em seus carros, mesmo para curtas distâncias. A geografia e a infraestrutura rodoviária do país criam desafios de tráfego que o Waze ajuda a diminuir", diz Esposito.

Segundo a empresa, os brasileiros gastam, em média, 1h36 no Waze todos os dias – cerca de 48 horas por mês. Só na Grande São Paulo há 4,4 milhões de usuários ativos ("Wazers") que rodam mais de 820 milhões de quilômetros e reportam 3,3 milhões de alertas por mês no app.

No Rio de Janeiro são 1 milhão de usuários ativos, rodando cerca de 210 milhões de quilômetros e criando mais de 650 mil de alertas mensalmente.

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A tecnologia que move o Waze

Um mapa, uma rota, uma previsão de tempo de percurso e algumas notificações ao longo do caminho. Pode até parecer simples, mas há muita tecnologia por trás dos simpáticos (e úteis!) mapas do Waze.

O app de navegação GPS guiada por voz é colaborativo, ou seja, depende da participação da comunidade: são os usuários que compartilham informações em tempo real. É o chamado "crowdsourcing" – quando uma multidão é a fonte de informações.

As informações e os dados gerados pelos próprios motoristas adicionam elementos interativos à experiência do usuário, típicos da gamificação. Essa característica não só incentiva o uso do aplicativo como o transforma quase em um jogo em que as pessoas se sentem incentivadas a atualizar a situação do trânsito e tudo o que encontram pelo caminho, desde problemas na pista até os preços de combustível. É uma mistura de rede social com game.

Além de realmente prestar um serviço útil aos usuários, toda essa interatividade também é um dos grandes diferenciais do Waze em relação aos demais GPS ou apps de navegação que já vêm nos smartphones e nos carros. Ou seja: por oferecer esse algo a mais, que é tão significativo, o Waze se destacou na multidão.

Tamanha velocidade e quantidade de dados produzidos em tempo real faz com que o Waze não se considere apenas uma “empresa de mapeamento”, e sim uma empresa de big data. Para operar com todas as suas funções, depende de uma conexão de rede de dados ativa durante todo o tempo (ou pelo menos na maior parte dele) no dispositivo móvel.

"O Waze compartilha informações anônimas e disponíveis publicamente, incluindo trânsito, acidentes, fechamentos de estradas, clima e muito mais", afirma o executivo.

Esposito explica que o aplicativo analisa em tempo real as informações compartilhadas de seus milhões de usuários e é capaz de perceber as vias que as pessoas evitam e também as estradas que são mais lentas. "Desta forma, o produto está ficando mais inteligente ao longo do tempo. É assim que funciona o aspecto de machine learning", diz.

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Parte (crescente) do dia a dia

E o app não se restringe ao trânsito em si, mostrando sua força ainda maior no cotidiano dos centros urbanos. No final de maio, em meio à greve de caminhoneiros no Brasil, diversas cidades do país enfrentaram a falta de combustível nos postos.

Antes que as bombas secassem completamente, como aconteceu na grande São Paulo, o Waze ofereceu ajuda à população que buscava por etanol e gasolina. De maneira emergencial, o aplicativo lançou um recurso que permitia que os usuários avisassem outros motoristas onde ainda havia combustível. Para inserir a informação na plataforma, bastava estacionar em um posto, abrir o aplicativo e indicar, por meio de um botão, se naquele estabelecimento tinha gasolina, etanol ou diesel.

O Waze também utiliza outros bancos de dados para se manter sempre atualizado. Segundo a empresa, organizações e governos estão trabalhando juntos para aprimorar os insights de dados para gerar impacto real no trânsito.

O programa Connected Citizens, por exemplo, é uma parceria contínua entre o Waze e várias agências governamentais internacionais para compartilhar dados públicos sobre acidentes e interdição de vias – e já de olho num futuro diferente nas estradas.

"O Waze será cada vez mais usado como um papel fundamental nos carros conectados e veículos autônomos, impulsionando o conceito e prática das 'cidades inteligentes' por meio de mais parcerias públicas e privadas e do compartilhamento de dados", finaliza Leandro Esposito.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.