31 de jul de 2018

Por que a PrograMaria oferece curso de programação para mulheres

Udacity Brasil

Quando se fala em programação, é muito provável que a primeira imagem que venha à sua mente seja a de um homem atrás da tela do computador, digitando linhas e mais linhas de códigos. Mas por que não pensar em uma mulher programadora? Elas existem!

A desigualdade de gênero no mundo da computação é enorme: números da organização Girls Who Code mostram que 74% das meninas demonstram sim interesse pelas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, mas apenas 0,4% delas escolhem estudar ciência da computação. No Brasil, segundo dados do IBGE, somente 17% dos programadores no mercado de TI são mulheres.

Foi em meio a este cenário desigual que surgiu a PrograMaria, uma iniciativa brasileira que joga luz sobre o assunto, tem a missão de empoderar meninas e mulheres por meio da programação e da tecnologia e ajuda a promover a inclusão de mulheres no campo da computação.

A PrograMaria é uma ONG que foi criada justamente para começar a colocar em xeque a grande disparidade que existe até hoje entre homens e mulheres no mercado da computação. Na tentativa de mudar a situação, a PrograMaria ministra cursos de programação para mulheres e oferece conteúdo em seu site – entrevistas, reportagens, tutoriais, infográficos e cursos –, com o objetivo de inspirar as mulheres a conhecer essa área.

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Por que mulheres ainda são minoria na tecnologia?

Em uma reportagem especial, a PrograMaria explica que "o processo de masculinização da informática, mais precisamente, a figura do geek anti-social, se desenvolveu na década de 1960 a partir da instituição de programas formais da disciplina, de revistas e sociedades profissionais e programas de certificação. Ou seja, tem pouco a ver com habilidades intelectuais de origem biológica, mas com corporativismo".

A PrograMaria afirma ainda que modelo de educação também pode contribuir com a perpetuação desse quadro quando não desconstrói noções preconcebidas daquilo que costuma ser entendido como "coisa de menino" e "coisa de menina".

Não faltam pesquisas sobre o tema. Um levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou, por exemplo, que as meninas se sentem menos confiantes em matemática do que os meninos – mesmo aquelas que se saem melhor do que eles.

Já um estudo da Universidade de Washington chegou a conclusões nessa mesma linha. Os achados sugerem que o estereótipo de gênero na matemática é adquirido precocemente na infância e gera influência desde cedo na maneira como a criança percebe suas capacidades em exatas.

Assim, "as percepções das meninas sobre si mesmas determinam o quão bem elas se motivam e perseveram ao enfrentar dificuldades para aprender matemática. Também influenciam as escolhas delas sobre cursos e atividades extracurriculares", escreveu a PrograMaria.

Tudo isso culmina com uma pequena quantidade de mulheres que optam por seguir carreira como programadoras ou outras profissões na área da computação. Para se ter ideia, na Unicamp, por exemplo, em 2016, apenas 12,3% dos aprovados no vestibular de Ciências da Computação em 2016 eram mulheres.

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O início da PrograMaria

"A PrograMaria começou como um clube de programação para mulheres que queriam aprender a programar. Reuni outras mulheres, designers, jornalistas e programadoras para aprendermos juntas", revela em entrevista à Udacity Iana Chan, cofundadora da PrograMaria.

Ela continua: "Quando vimos que as dificuldades e barreiras entre nós e a tecnologia eram um problema de muitas outras mulheres, decidimos criar uma iniciativa com a missão de empoderar mulheres com tecnologia e programação".

A própria história pessoal de Iana Chan foi cheia de desafios. "Desde pré-adolescente, quando tinha meu blog, adorava mexer nos códigos para deixá-lo com a minha cara. Achava sensacional poder me expressar não só com palavras, mas com outros recursos. Mesmo assim, na hora de decidir um curso, optei pelo jornalismo, nem considerei que engenharia ou computação pudesse ser para mim, apesar de gostar muito da área", revela.

Qual linguagem de programação aprender? Este infográfico mostra!

Na carreira como jornalista, Iana sempre trabalhou ao lado de desenvolvedores e percebia que ter afinidade com a área de tecnologia permitia uma relação muito mais produtiva com esses profissionais. "Logo fui alçada a gerente de projetos e comecei a sentir na pele os obstáculos de um ambiente majoritariamente masculino. Eu era sempre a única na reunião e, apesar de nunca ter sofrido nenhum assédio, é comum enfrentar situações no mínimo desconfortáveis", conta ela.

Assim como Iana, muitas mulheres que chegam à PrograMaria relatam sobre as barreiras e hostilidades que percebem nesse tipo de ambiente da tecnologia, pelo simples fato de serem mulheres. "Muitas têm sua competência colocada constantemente em xeque, têm suas opiniões desconsideradas ou até apropriadas por colegas homens (o chamado “bropriating”)", diz Iana.

"Elas recebem salários menores nas mesmas funções que seus pares, são vítimas de todo tipo de violência: desde as microviolências como piadinhas machistas, 'mansplaining' (quando um homem faz questão de explicar para as mulheres coisas que elas já sabem) e até assédio sexual", completa ela.

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Elas fazem a diferença

Foi em 2015, após ser contemplada pela Vai Tec (iniciativa da Prefeitura de São Paulo de incentivo a projetos de impacto social) e pelo Prêmio Mulheres Tech em Sampa, que a PrograMaria saiu do papel. Atualmente, mais de 150 participantes já passaram pelas oficinas de introdução ao desenvolvimento web que a ONG oferece.

"Entre as oficinas, já trabalhamos com públicos específicos, como garotas entre 14 e 19 anos e outra para pessoas trans", comenta Iana Chan. "Também já realizamos três edições do curso Eu ProgrAmo, que formou 90 mulheres em conhecimento de programação front-end – HTML, CSS e JavaScript."

Outro papel importante da PrograMaria é a criação de pontes entre as mulheres e o mercado de trabalho de tecnologia. "Temos alunas que foram trabalhar na ThoughtWorks, Accenture, entre outras empresas. Esse é um dos fatores que levam as grandes empresas a nos procurarem para apoiar nossas atividades. Já realizamos projetos em parceria com a CA Technologies e a Intel, por exemplo", informa a cofundadora.

Alunas em aula ministrada pela PrograMaria

Como funciona a PrograMaria?

São três pilares que norteiam e fundamentam todas as atividades da PrograMaria:

1. Inspirar

A ideia é trazer representatividade e inspirar as mulheres a entrar no campo da computação. Apesar de serem minoria, há inúmeras mulheres com contribuições relevantes para a tecnologia – tanto no passado como no presente. A PrograMaria produz conteúdo sobre o assunto e realiza eventos para dar voz a essas mulheres, além de desmistificar o conceito de “pessoa programadora”, que na maioria das vezes é personificado em homens, nerds e gênios.

2. Debater

A ONG busca qualificar a discussão sobre a falta de mulheres na área da computação gerando informação, pesquisas e eventos para fomentar a troca de conhecimento. Assim, é possível compreender melhor as barreiras que separam as mulheres da tecnologia e também os desafios de quem estuda ou trabalha na área.

3. Aprender

São oferecidos cursos de programação para mulheres e oficinas que apoiam aquelas que desejam ingressar no universo da computação ou que já estão no mercado e desejam dar um passo a mais na carreira, assumindo posições de liderança. A PrograMaria também atende empresas que acreditam nessa potência e desejam contratar mais mulheres.

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Para mergulhar na área de tecnologia

Mulheres que têm interesse em desbravar o mundo da computação encontram vasto conteúdo no site da PrograMaria – desde assuntos mais simples, para quem ainda está começando a familiarizar com a área, até conteúdos especiais, como a reportagem que debate a importância da diversidade e as barreiras que ainda existem nesse campo.

Para aquelas que desejam aprender programação presencialmente e entrar no promissor mercado da tecnologia, é possível participar de uma das turmas do curso Eu ProgrAmo. As interessadas devem se inscrever no site e aguardar contato sobre a abertura de novas turmas.

O curso é composto por 12 aulas, totalizando 40 horas. A introdução à programação é ensinada com foco em desenvolvimento web. As alunas têm contato com HTLM, CSS, JavaScript e JQuery. As aulas acontecem na cidade de São Paulo e o custo é de R$ 360. Caso a mulher não possa pagar essa taxa, é possível pedir por bolsa no formulário de inscrição.

Apesar das barreiras e da disparidade de gênero que ainda existem nesse mercado de trabalho, o momento se mostra promissor para a chegada de novas profissionais na área. Isso porque, de acordo com a Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro, o Brasil pode chegar ao ano de 2020 com um déficit de mão de obra qualificada em TI de 408 mil profissionais.

Ou seja: tem espaço de sobra para muita gente – especialmente mulheres. Não importa quem você é, se gosta de tecnologia, invista em sua educação, acredite em você mesma e tenha certeza de que esse mundo pode ser seu.

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