26 de nov de 2018

Como o Facebook está combatendo fake news com dados e IA

Leia mais

Foto por Facebook

Udacity Brasil

Foto por Facebook

A eleição de Donald Trump nos EUA em 2016 tirou o sono não apenas da oposição, mas também de Mark Zuckerberg e outros altos executivos do Facebook. Afinal, a plataforma foi a maior disseminadora das chamadas fake news. E embora não exista um valor numérico definitivo, o fato é que boatos e informações falsas impactaram diretamente milhões de eleitores americanos – e não pararam por lá.

Desde então, a empresa tem aberto os olhos voltados para outros eventos políticos importantes, como a eleição presidencial brasileira, e se dedicado a combater a propagação desses chamados “conteúdos ruins” de forma geral.

Falando ao Congresso americano, Zuckerberg deixou clara sua preocupação com os processos eleitorais, inclusive citando o brasileiro, um dos maiores do mundo. “2018 é um ano incrivelmente importante para as eleições (...) em todo o mundo. Queremos garantir que faremos tudo que for possível para proteger a integridade dessas eleições”, disse.

A boa nova é que os esforços do Facebook – que tem mais de 2 bilhões de usuários – têm surtido efeito. Um estudo realizado por pesquisadores das Universidades de Stanford e Nova York mostra que as interações com sites de notícias falsas por meio da rede social de Zuckerberg diminuiu mais de 50% desde o início de 2017, enquanto o engajamento com sites confiáveis permaneceu estável.

Captura de Tela 2018-11-27 às 14.50.14

O Facebook divulgou vídeo sobre suas iniciativas de combate às fake news e como a questão é vista na empresa. Assista aqui

Ainda assim, a plataforma continua sendo a maior fonte de informações falsas se comparada com outras, como o Twitter. E embora a pesquisa melhore os ânimos na batalha contra a desinformação, não significa que esta foi vencida.

O estudo não trata, por exemplo, da possibilidade de novas fontes de conteúdo ruim surgirem, nem do potencial uso da tecnologia para driblar os recursos das redes sociais e tornar as informações falsas cada vez mais críveis.

“É uma corrida armamentista. Eles vão continuar melhorando e precisamos investir para melhorar também”, reconheceu Zuckerberg.

O que o Facebook está fazendo para combater as fake news?

Por enquanto, a estratégia do Facebook para evitar o alastramento da desinformação se concentra em três frentes:

  • Remover conteúdos ruins e que desrespeitam os padrões da comunidade
  • Reduzir o alcance de conteúdos que não necessariamente violam esses padrões, mas que se mostram potencialmente ruins
  • Informar o usuário, oferecendo conteúdos verdadeiros sobre os assuntos de interesse

Para isso, a empresa de Zuckerberg tem apostado no uso de ferramentas de inteligência artificial para detectar contas e informações falsas. Técnicas de machine learning são aplicadas para que um software possa identificar padrões de conteúdos ruins e reduzir seu alcance. Os dados da própria comunidade alimentam esse algoritmo, para que ele seja capaz de identificar reconhecer nuances das informações potencialmente falsas.

Além disso, cerca de 15 mil pessoas já foram contratadas para trabalhar na revisão dos conteúdos postados em diversos idiomas, entre elas especialistas em verificação visual para avaliar a veracidade de imagens e cientistas de dados analisam os dados para entender como a informação falsa se espalha. (É para eles, no fim, que você denuncia conteúdos.)

Também foram criadas ferramentas que apresentam informações detalhadas sobre os autores de notícias e que permitem aos usuários denunciar conteúdos considerados ruins.

Exemplos das frentes de combate do Facebook na prática

Em alguns países, inclusive no Brasil, o Facebook lançou parceria com agências de fact checking para examinar essas denúncias. Por aqui, as equipes da Aos Fatos e da Agência Lupa são responsáveis por checar as informações compartilhadas. Caso elas sejam mesmos falsas, o alcance orgânico do post é diminuído e o impulsionamento pago, proibido.

Um dos resultados de todas essas medidas foi a suspensão de 196 páginas e 87 contas brasileiras que formavam uma grande rede de fake news no país em julho de 2018. Zuckerberg já disse que grandes avanços foram feitos ao longo de 2018, e que tem esperanças para estar totalmente preparado até 2021. “Acho que levará cerca de três anos para adaptar tudo no Facebook para estarmos prontos para todos os problemas de conteúdo e segurança", disse ao Recode.

E as outras redes sociais?

Com as iniciativas do Facebook mostrando algum impacto, os disseminadores de informações ruins têm migrado para outras redes sociais. O mesmo estudo das Universidades de Stanford e Nova York revela que a interação com sites de notícias falsas aumentou consideravelmente no Twitter no mesmo período em que diminuiu no Facebook. Mesmo assim, o Twitter ainda não divulgou medidas específicas contra fake news.

Os robôs são vistos como os principais inimigos do Twitter, e por isso a rede social tem se concentrado em eliminar contas automatizadas e tidas como “mal intencionadas”. No entanto, um estudo recente do Massachusetts Institute of Technology aponta que o grau de difusão de fake news pelos bots não é muito diferente daquele verificado em humanos.

Os robôs observados, aliás, compartilhavam notícias falsas e verdadeiras na mesma proporção, levando os pesquisadores a concluir que as pessoas são mais suscetíveis a divulgar esse tipo de conteúdo.

A questão do WhatsApp

Outra plataforma que tem cada vez mais motivos para se preocupar é o WhatsApp, que também pertence ao Facebook. Segundo o Relatório da Segurança Digital, mais de 60% das notícias falsas que chegam aos brasileiros – que são apontados como o segundo povo com menor percepção de realidade do mundo, segundo a Ipsos – vêm pelo app de mensagens.

Outro estudo, feito em conjunto por USP, UFMG e Agência Lupa, analisou as 50 imagens que mais circularam no WhatsApp durante a campanha do primeiro turno no Brasil. Apenas 4 eram verdadeiras. As imagens circularam em 347 grupos públicos e impactaram, só por lá, mais de 18 mil pessoas.

Projeto Comprova dá dicas para não cair em fake news

Após uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelar que empresas compraram pacotes de disparo de mensagens em massa para prejudicar o candidato à presidência Fernando Haddad, o aplicativo, que tem mais de 120 milhões de usuários no Brasil, foi obrigado a tomar medidas.

Além de suspender contas de agências e pessoas suspeitas de envolvimento com a ação, lançou uma campanha de conscientização do público, com mensagens como “Compartilhe fatos, não boatos” e “Mensagens encaminhadas não foram criadas por quem te enviou”. Banners online, espalhados por sites de grandes jornais, levam a uma página de FAQ do Whatsapp aberta especialmente para tratar de boatos e fake news.

Antes disso, o WhatsApp já tinha criado algumas funções, pensando no potencial crescimento da desinformação pelas mensagens instantâneas.

O aplicativo limitou o número de destinatários de mensagens encaminhadas, implementou uma sinalização dessas mensagens, removeu contas pela prática de spam, fechou parcerias com projetos de checagem e até lançou um concurso para premiar propostas de pesquisa sobre o combate às fake news, com enfoque especial na influência aos processos eleitorais.

E o Brasil não é o único problema do WhatsApp. A Índia, que também realizou eleições este ano, é o país que mais usa o app de mensagens no mundo e um dos mais atingidos por informações falsas.

Em território indiano, onde a situação é ainda mais crítica, o aplicativo pediu apoio do Ministério de Eletrônica e TI e divulgou anúncios em jornais, na tentativa de conter as consequências da repercussão dos boatos. Na Índia, partidos políticos foram acusados de disseminar esse tipo de conteúdo e pessoas chegaram a ser linchadas por causa de notícias falsas.

Incentivo à transparência e às parcerias

No dia 27 de novembro, em uma acalorada sabatina transmitida ao vivo, Richard Allan, vice-presidente de soluções de políticas do Facebook, passou horas respondendo questões de representantes de nove governos – Argentina, Brasil, Canadá, Irlanda, Látvia, Singapura, Bélgica, França e Reino Unido – sobre o impacto político de ações nas duas redes sociais.

A questão de campanhas políticas no WhatsApp, que já preocupa diversos governos pelo mundo, surgiu após uma pergunta do deputado federal brasileiro Alexandre Molon. "Esses temas são mais difíceis e precisamos de orientação regulatória", começou Allan, destacando que a empresa acredita que será preciso um esforço conjunto com decisores políticos e autoridades para criar regras eficazes e resolver problemas.

"Se um partido político manda mensagens para 200 mil pessoas pedindo que postem aquele conteúdo, meio que parece legítimo. Se for uma coordenação inapropriada [entre outros agentes], não é. Uma campanha legítima e atividades ilegítimas podem ter aparência parecida." Nesse caso, seria preciso definir quais são os limites para uma campanha política online, por exemplo.

O deputado aproveitou para perguntar: como evitar que esses serviços se tornem um centro de fake news?

"Agora estamos construindo o WhatsApp pensando sobre a integridade de eleições", disse Allan. E aproveitou para delinear que há diferenças entre regras para um e outro. "A regulação de um espaço público, como Facebook, é diferente da regulação de comunicação entre pessoas ou em pequenos grupos. Mas não queremos que nenhum de nossos serviços seja usado de maneira manipulativa."

À Rebecca Pow, membro do parlamento britânico, ele respondeu que a empresa estaria satisfeita com o tipo certo de regulamentação. "Vamos chegar ao ponto em que você concorda que estamos fazendo o tipo certo de trabalho, e pode nos responsabilizar se não estivermos."

A discussão, garantiu Allan, é de suma importância para a organização. "Queremos que nosso serviço seja bom, útil e seguro", disse. "Reconhecemos que não estamos num bom lugar quando se trata de confiança [do público]."

Como escapar das fake news?

Tudo indica que a batalha das redes sociais contra a desinformação tende a ser cada vez mais desafiadora. Isso porque a tecnologia avança tanto de um lado quanto do outro: se o Facebook e o Twitter usam a inteligência artificial para identificar perfis falsos e mal intencionados, os disseminadores de boatos e fake news podem adotar as mesmas ferramentas tanto para evitar a detecção quanto para criar conteúdos mais críveis, como os deep fakes, vídeos feitos com tecnologia de inteligência artificial e que têm aparência cada vez mais realista.

Deep fake do ex-presidente dos EUA, Barack Obama

Por isso, surge também a importância de criar um senso de cidadania digital. Nesse sentido, é importante estar atento e saber onde buscar informações realmente confiáveis e verdadeiras – uma espécie de segunda fase da alfabetização digital.

Na era da redes sociais, também é importante que indivíduos façam sua parte para torná-las melhores, sem deixar todo o trabalho para os engenheiros de machine learning das empresas de tecnologia.

Uma das formas mais fáceis de fazer isso é, na hora da dúvida, consultar agências de fact checking, cujo papel de checar e desmentir fake news têm crescido ao redor do mundo e também no Brasil. Conheça algumas opções brasileiras abaixo:

  • Projeto Comprova: criado especialmente para as eleições de 2018 no Brasil, o projeto reuniu jornalistas de 24 veículos de comunicação do país para investigar informações enganosas veiculadas durante a campanha presidencial

  • Agência Lupa: foi a primeira agência de notícias do Brasil a se especializar em fact checking e integra a International Fact-Checking Network (IFCN)

  • Aos Fatos: plataforma pioneira de checagem de fatos no Brasil, se dedica exclusivamente ao fact checking

  • Truco - A Pública: projeto da Pública, primeira agência brasileira de jornalismo investigativo, criada em 2011

  • Checamos - France-Press: braço de checagem de informações falsas da agência de notícias France-Press, uma das mais antigas e prestigiadas do mundo

Sobre o autor
Udacity Brasil

A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.