Soluções radicais, fracassos radicais: 4 lições da X

Udacity Brasil
7 de jun de 2018

O cargo notável de Obi Felten é "Head Of Getting Moonshots Ready For Contact With The Real World, X, The Moonshot Factory". Em português, seria algo como "Chefe de deixar desafios imensos prontos para contato com o mundo real, X, The Moonshot Factory".

Em março de 2018, ela fez a palestra principal no evento anual da Udacity, o Intersect, que reúne grandes figuras inspiradoras do Vale do Silício e outras áreas, empresas em busca de talentos e graduados de cursos para um dia de conexões e aprendizados transmitido ao vivo.

A X, onde Obi trabalha, é a antiga Google X, responsável por tirar do papel e testar algumas das ideias mais desafiadoras e inovadoras do mundo: há um projeto para usar balões para dar acesso à internet, lentes de contato que medem diabetes e armazenamento de energia solar e eólica. Sebastian Thrun, cofundador e presidente da Udacity, criou e liderou a unidade quando tornava realidade algo então visto como extremamente futurista: carros autônomos.

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Além do cargo, o tema da apresentação de Obi também foi digno de nota: "Ousando extraordinariamente: como falhar graciosamente no caminho para o sucesso". Em seu discurso, ela falou sobre "um dos clichês do Vale do Silício". Este clichê é a ideia de fracassar rapidamente.

"Nós não queremos fracassar rapidamente, mas queremos aprender rapidamente", começou. Em um mundo em que inovadores emergem no mundo inteiro buscando novos caminhos para o sucesso usando como fortalezas seus backgrounds únicos, ideias novas e paixões profundas, essa é uma distinção importante.

O que é importante não é fracassar, mas aprender. Quando as pessoas se comprometem com tornar seus sonhos realidade – e estão se inspirando no espírito empreendedor do Vale do Silício –, é vital esclarecer a relação entre fracasso e sucesso.

Assista à palestra de Obi Felten no Intersect 2018

"O caminho para o sucesso é cheio de fracassos", começou. "Apenas aceite que você vai falhar." Até aí, nenhuma grande novidade. Afinal, há tempos os empreendedores do Vale do Silício já adotaram "fracasse rapidamente" como um lema praticamente oficial.

A novidade que Felten traz são lições de como os profissionais da X lidam com fracassos em suas diversas frentes.

1. Comece pelo problema mais difícil

A primeira lição: escolha o problema mais difícil primeiro. Caso seu objetivo seja ter um macaco recitando Shakespeare em cima de um pedestal, questiona ela, o que fazer primeiro? Construir o pedestal ou treinar o macaco?

"A maioria das pessoas pula rapidamente para o que sabe fazer", fala. "Criam uma lista de tarefas para tirá-las do caminho logo e porque vai ser legal reportar o progresso para a chefia ou o venture capitalist."

De acordo com a lógica da X, essa é a abordagem errada. Melhor seria começar pelo que é mais difícil (treinar o macaco) do que descobrir, um ano depois, que o macaco é impossível de treinar e foi um ano desperdiçado.

Quando Felten começa um projeto, a primeira coisa que sua equipe faz é uma lista de riscos acompanhada de quanto medo eles têm de cada item. "Se isso acontecer, vai afundar o projeto?", continua. "Fazemos o que pode afundar o projeto e é assustador primeiro."

Ela dá um exemplo: o Projeto Loon, que começou há cinco anos, que trazer conectividade para o mundo inteiro, especialmente nas áreas mais remotas e pobres onde ainda está a maioria das pessoas sem internet.

A solução radical foi subir para a estratosfera, levando balões que flutuam e emitem sinais. Para que a conta fechasse, eles precisariam durar pelo menos 100 dias – mas só estavam durando cinco antes de vazar.

A equipe então se pôs a estudar os motivos do vazamento analisando desde embalagens de salgadinhos até preservativos, andando de pantufa em cima dos balões e tentando coisas novas.

Hoje, os balões duram em média 190 dias e já foram postos à prova em 2017 em Porto Rico, após o furacão Maria, onde conectaram cerca de 200 mil pessoas afetadas pela destruição.

2. Não tenha medo de guinadas

Outro exemplo que Felsten trouxe foi o Google Glass, o óculos inteligente lançado em 2013. Quem se lembra de seu lançamento geralmente o associa a críticas ruins e uma boa dose de ridículo. Em geral, considera-se que o produto falhou.

E se a ideia era lançá-lo diretamente para consumidores, de fato foi um fracasso: pelo design intrusivo, pelos comandos de voz que não funcionavam tão bem na época, pela incompreensão de quem achava que estaria sendo vigiado constantemente pelos usuários.

No entanto, o que se descobriu é que havia, sim, um público: empresas, que o utilizam para treinamento e complementaridade de tarefas. "Foi um pivô completamente inesperado", diverte-se Felten, citando que hoje há 30 empresas clientes. "Se o produto não tivesse saído do laboratório, nunca saberíamos disso."

3. Estabeleça a hora de parar

E qual é o momento de desistir e aceitar que não há o que fazer? A X tem um caminho para isso também.

Felten continua dizendo que é comum, entre empreendedores, definir quais são os critérios de sucesso de uma startup logo no começo. Mas este também é o momento certo para determinar os critérios de "morte" do projeto.

"Decida: 'Se tal coisa acontecer, vou terminar meu projeto'", aconselha. "Assim, caso a coisa aconteça, será uma decisão bem menos emocional e que o próprio time pode tomar.

4. Lide com as consequências emocionais

Com ou sem esses critérios de término, uma coisa é certa: há quem enfrente um período de luto por uma ideia que não deu certo. Na X, explica Felten, isso é levado tão a sério que a empresa utiliza o Dia de Finados, em novembro, para se despedir de verdade de seus projetos.

"Nós sabemos que a inovação é confusa", admite. "A chave está em como lidamos com os fracassos inevitáveis no caminho para a lua."

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