4 de jul de 2018

Como a Gates Foundation, de Bill e Melinda Gates, investe em tecnologia para mudar o mundo

Udacity Brasil

O que você faria se tivesse 90 bilhões de dólares? Provavelmente a resposta de muita gente para essa pergunta envolve bastante ostentação. O segundo homem mais rico do mundo, porém, nunca foi chegado a extravagâncias. Por isso, não demorou muito para que a filantropia aparecesse como um destino óbvio para o patrimônio construído pelo co-fundador da Microsoft Bill Gates e sua esposa Melinda.

Foi durante uma viagem à África, em 1993, que os dois começaram a pensar em maneiras de amenizar os problemas do mundo. “O que realmente nos tocou foram as pessoas e a pobreza extrema. Começamos a nos questionar: isso tem que ser assim?”, conta Melinda em sua participação no TED Talk, ao lado de Bill. Anos depois, no final do milênio, o casal concretizou as ideias com a criação da Gates Foundation, fundação dedicada a investir em soluções, sobretudo tecnológicas, para a desigualdade.

Desde então mais de 40 bilhões de dólares já foram doados para projetos ao redor do globo, com destaque para as áreas de saúde global e educação. Ao contrário da filantropia pura e simples, no entanto, a Gates Foundation avalia com profundidade o impacto social de cada investimento, valorizando o retorno que pode ser gerado. Por esse motivo, empresas privadas — principalmente as que trabalham com pesquisas de ponta em saúde e desenvolvimento — também são alvos das doações.

O trabalho da fundação funciona de forma bem pragmática: começa pelo reconhecimento de um problema que, na opinião da equipe, recebe pouca atenção e passa pelo desenvolvimento de uma estratégia que tem como objetivo resolvê-lo. É aqui que entram os projetos das empresas e organizações favorecidas, por meio de propostas sobre como trilhar esse caminho — sempre “perseguindo novas soluções e aproveitando o poder transformador da ciência e tecnologia”.

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Saúde global como prioridade

Uma lista de 81 livros e relatórios, indicada pelo famoso epidemiologista americano Bill Foege em 1999, despertou em Bill Gates o interesse pelas questões de saúde global. Hoje, erradicar doenças que matam milhares de pessoas todos os anos talvez seja a maior pretensão do magnata e sua esposa Melinda com a fundação que criaram. “Eu e Melinda escolhemos a saúde global como nossa grande causa: descobrir novos remédios e vacinas e entregá-los às crianças do mundo”, disse ele em entrevista recente à apresentadora americana Ellen DeGeneres.

Com foco especial em imunização e prevenção, as iniciativas da dupla têm como alvos de combate a malária, a poliomelite, a tubercuolose e até a AIDS. Todos os anos, a fundação investe cifras grandiosas (em 2016, por exemplo, foram 13 bilhões de dólares) em alternativas para dizimar essas doenças dos países mais pobres do mundo, e as iniciativas apresentam resultados reais. Em entrevista ao Wall Street Journal, Melinda sinaliza o otimismo em relação a essas novas descobertas. “Estamos desenvolvendo ferramentas e sabemos que elas funcionam.”

Vídeo da Gates Foundation explica a importância das vacinas para a saúde global

De acordo com o jornal britânico The Guardian, isso ajudou a erradicar a malária em quatro países desde o começo do século 21. Em 2014, a Índia se declarou oficialmente livre da poliomelite, graças a um programa da Gates Foundation em parceria com o Rotary Internacional, que levou dois milhões de vacinadores ao território indiano. O dado mais usado por Bill Gates em suas palestras, inclusive, é a taxa de mortalidade infantil até os cinco anos, que caiu pela metade desde o início dos trabalhos da fundação.

Gráfico que Bill Gates apresenta sobre a queda da mortalidade infantil

Mas, afinal, em que tipo de tecnologia a Gates Foundation tem investido para alcançar esses objetivos? Pesquisas em biotecnologia e ciências farmacêuticas chamado a atenção de Bill, especialmente estudos de imunoterapia para cura do câncer. Ele acredita que essas descobertas também encontrarão aplicações em problemas de saúde global. “Estou certo de que daqui a uma década veremos uma manchete: ‘Como as ferramentas contra o câncer estão ajudando a curar o HIV’”, disse ele na conferência anual de cuidados em saúde do grupo JP Morgan em janeiro.

Em seu discurso, Bill citou algumas empresas da área que têm sido beneficiadas pelos seus financiamentos, entre elas a Immunocore — que estuda a tecnologia de células T para estimular o sistema imunológico —, a CureVac e a Moderna — que usam moléculas de RNA para desenvolver tratamentos contra o câncer. Ele acredita que esses tratamentos podem ajudar a curar várias doenças infecciosas. "Essa abordagem [com RNA] também é intrigante como uma potencial intervenção imunológica para o HIV, a malária, a gripe e o vírus da Zika", disse.

A CureVac, por exemplo, usa a molécula de RNA para o desenvolvimento de vacinas que “ensinam” ao corpo como criar proteínas para combater o câncer e infecções. “As vacinas de RNA provavelmente serão mais baratas, mais fáceis e mais rápidas de fabricar do que as vacinas tradicionais. Isso seria particularmente útil para conter as epidemias — tanto se elas acontecem através da natureza como quando são o resultado de um ataque biológico intencional”, defendeu o bilionário na conferência.

As vacinas, porém, não são o único recurso em que a fundação aposta. No Brasil, a Gates Foundation patrocinou o desenvolvimento de um software que detecta parasitas por imagens de microscópio e avalia qual medicamento e dosagem podem ser úteis em cada caso. Soluções inovadoras para o saneamento básico, como o uso de energia solar para processar resíduos ou de ultra-som para economizar água, também têm sido contempladas.

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Outras iniciativas

A desigualdade no acesso à educação nos Estados Unidos é outra frente importante nas ações da Gates Foundation. Nos próximos cinco anos, a fundação pretende destinar 1,7 bilhão de dólares a melhorias curriculares e à exploração de novas técnicas de ensino. "Melinda e eu fizemos da educação pública nossa maior prioridade nos EUA, porque queríamos fazer algo sobre a disparidade nas conquistas (...) dos estudantes de baixa renda”, disse Bill no encontro do Council of the Great City Schools, em Cleveland, em outubro de 2017.

Na palestra, ele defendeu a importância desempenhada por novas abordagens para a educação, sobretudo as tecnológicas, nesse processo. “As condições para o desenvolvimento e disseminação dessas abordagens estão melhores do que nunca.

O acesso à banda larga nas escolas chega a 90%. Alunos e professores têm acesso a ferramentas mais poderosas de aprendizado. Educadores estão procurando uns aos outros e compartilhando idéias em comunidades digitais. E há desenvolvimentos promissores em neurociência, psicologia cognitiva e economia comportamental.”

Bill acredita que essas melhorias na educação de base podem preparar os jovens para as atuais mudanças na economia e no mercado de trabalho. “Temos que transformar as experiências relacionadas ao trabalho em uma parte consistente das escolas secundárias, de modo a criar engajamento dos alunos e habilidades relevantes”.

Nesse sentido, uma das instituições beneficiadas é a Code, que se esforça para levar a ciência da computação a comunidades desfavorecidas e também a atrair mais meninas para a área.

Assuntos como mudança climática e sustentabilidade também estão no radar da Gates Foundation. Há pouco menos de dois anos, Bill se juntou a outros bilionários (entre eles Jeff Bezos, criador da Amazon) para investir em negócios de energia limpa, com o projeto Breakthrough Energy Ventures. O foco são áreas que ele considera “promissoras”, como armazenamento em grande escala, combustíveis líquidos, materiais de construção alternativos e energia geotérmica.

Vídeo da Gates Foundation explica o futuro da agricultura e sua relação com as mudanças climáticas

A pesquisa agrícola é outra prioridade da fundação, porque Bill acredita que ela pode ser uma forma de tirar os agricultores de países pobres da miséria e combater a fome. As pesquisas incentivadas incluem de vacinas e análise genética para o gado à adaptação de plantações às mudanças climáticas – inclusive no Brasil.

Em 2013, dois brasileiros, Mateus Marrafon e Ricardo Resende, receberam um aporte inicial de 100 mil dólares cada para executarem técnicas de plantio eficientes e de baixo custo.

A perspectiva de Bill e Melinda Gates sobre todas essas iniciativas é de resultados positivos. “Quando estamos no campo, nós vemos as inovações possíveis em vacinas, agricultura ou transações bancárias. Essas tecnologias estão se espalhando, e nós vemos que as famílias as adotam. Então, realmente enxergamos uma mudança palpável, apesar de isso não aparecer sempre nas manchetes”, disse Melinda ao The Wall Street Journal.

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3 áreas promissoras, segundo Bill Gates

Em uma carta aberta aos graduandos do mundo em 2017, Bill Gates fez questão de destacar que seu próprio otimismo e apresentar áreas promissoras para jovens profissionais.

Se estivesse começando a trabalhar hoje e quisesse ter grande impacto no mundo – no mesmo nível que teve ao popularizar a computação –, Gates indica três campos: inteligência artificial, energia e biociência.

"Apenas começamos a usar todas as maneiras que ela tornará as vidas das pessoas mais produtivas e criativas", fala ele sobre AI.

Já a segunda área entra na conta porque energia limpa, acessível e confiável será essencial na luta contra a pobreza e contra as mudanças climáticas.

Por fim, ele diz que a biociência – que também encanta Eric Schmidt, ex-CEO do Google – é cheia de oportunidades para permitir que as pessoas vivam mais e tenham mais saúde.

"Vocês sabem muito mais do que eu sabia quando tinha sua idade. A tecnologia permite que você veja problemas de um jeito que meus amigos e eu nunca poderíamos ver, e te empodera a ajudar de maneiras que nós não poderíamos ajudar", continua. "Este é um momento incrível para estar vivo. Espero que você o aproveite ao máximo."

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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.