28 de set de 2018

Em tempos de blockchain, qual é a história (e o futuro) do dinheiro?

Udacity Brasil

No processo de desenvolvimento e aprimoramento do programa de estudos do curso programa Nanodegree Desenvolvedor Blockchain e da criação da série exclusiva Desenvolvido em blockchain da Udacity, tivemos o privilégio de trabalhar junto de alguns dos pensadores mais inovadores da área.

Um dos dos tantos especialistas visionários com quem tivemos a chance de conversar foi Bill Maurer. Ele é o reitor da Escola de Ciências Sociais e professor de antropologia, direito e criminologia na Universidade da California, em Irvine. Ele também é o diretor do Institute for Money, Technology and Financial Inclusion e algumas de suas publicações mais recentes são Paid: Tales of Dongles, Checks, and Other Money Stuff e How Would You Like to Pay?: How Technology Is Changing the Future of Money.

O roteirista e cineasta Scott Foreman, responsável pela série, conversou com Bill sobre a história da moeda, as formas como ela representa responsabilidades e obrigações, o surgimento do record-keeping (manutenção de registros) e o crítico papel da confiança para que o sistema funcione. Também exploramos as maneiras pelas quais as tecnologias de criptomoedas e blockchain são o próximo passo mais lógico na evolução da moeda.

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A história e o futuro do dinheiro

Scott Foreman: Vamos começar com uma pergunta sobre o surgimento da Bitcoin. Por que você considera que ela surgiu quando surgiu e por que acha que teve um impacto tão significativo em um período tão curto de tempo?

Bill Maurer: Há esses momentos na história do mundo, momentos de grande incerteza, em que você pode observar a reabertura de debates acerca do dinheiro — o que é, o que faz, quais são suas políticas. De muitas formas, os investidores iniciais e proponentes da Bitcoin realmente se inseriram nesse debate logo após as consequências da crise financeira de 2008. E quando o fizeram, recorreram à história do dinheiro e se puseram a pensar em como o ele poderia ser refeito, separado das estruturas estatais centralizadas que dão vida ao dinheiro hoje em dia.

SF: Se a ascensão das criptomoedas representa um novo momento na linha do tempo dessa história, o que representaria o começo? Há um momento seminal que tenha alavancado a história da moeda da forma que conhecemos hoje?

BM: É difícil identificar um momento específico na história porque a moeda é um sistema, não uma “coisa” singular. Mas é possível elencar alguns momentos chave. Podemos voltar no tempo até os primórdios do povoamento humano no Oriente Próximo, na Mesopotâmia. Esse é um momento muito importante em que começamos a ver seres humanos lidando com os problemas que surgem quando se tem um grande número de pessoas vivendo em um mesmo espaço, organizando suas vidas em torno da agricultura.

A agricultura é algo muito importante porque se está utilizando a terra como um tipo de instrumento – é uma ferramenta. Isso significa que esses povoamentos precisavam planejar tudo baseados nas mudanças das estações. Quando plantar o grão? Quando colher? Eles eram obrigados a pensar com antecipação ao manejar os alimentos e os itens de que necessitavam para sobreviver.

Para isso, começaram a conceber sistemas para gravar relações em placas de argila, representando as obrigações – créditos e débitos – que as pessoas tinham umas com as outras. Assim que esse tipo de coisa surge, começamos a ter algo que se assemelha ao dinheiro como o conhecemos.

No episódio "The future of money", os portais Quartz e Retro Report falam sobre os primeiros tipos de moeda, como grandes pedras submersas, e Bitcoins

SF: Então esse foi o despontar das moedas “representativa” e “fiduciária”? Isso que as moedas eram essencialmente? Foi nisso que se transformaram?

BM: As primeiras moedas foram cunhadas em 600 a.C. mais ou menos. Uma das coisas que realmente me fascina sobre essas moedas primitivas é que podemos ver o quão desafiador era para as pessoas adotarem essa nova tecnologia. Não era nem um pouco óbvio que, se eu possuísse uma dessas moedas e a oferecesse a você, eu estaria, desse modo, transferindo valor para você. Era um conceito muito estranho.

U: O que mudou para que a “moeda forte” adquirisse confiança o suficiente para funcionar?

BM: Tudo já havia sido previamente escrito. No caso dessas moedas, como eles poderiam saber onde haviam estado? Como saberiam se eram válidas? O que as pessoas de fato faziam era validá-las uns para os outros, colocando nelas sua marca antes de entregá-las ao próximo.

Para o receptor, isso é valor. Isso mostra a estabilidade da moeda como um objeto de valor, porque significa que já passou pelas mãos de várias pessoas diferentes. Esses primeiros usuários não viam a moeda como algo inerentemente confiável.

Não era possível confiar nelas a menos que algo tivesse sido escrito e manejado dentro do já familiar sistema de manutenção de registros que surgiu com as placas de argila.

O professor Bill Maurer, da Universidade da Califórnia

SF: Essa ideia de manutenção de registros – e sua relação com a confiança e valor – representa o início dos livros-razão distribuídos (distributed ledgers)? É isso que queremos dizer quando falamos de criptomoedas e blockchain como próximos passos em uma longa evolução que remonta as placas de argila?

BM: Muito do desenvolvimento principal em torno da Bitcoin, por exemplo, e da antiga comunidade Bitcoin, tinha a ideia de que você poderia remover a confiança interpessoal e em instituições e confiar no código. Eles confiavam na matemática porque ela não pode ser alterada pelos seres humanos; não podendo ser corrompida ou mudada.

Não é muito diferente das ideias por trás dos livros-razão primitivos de argila. No caso delas, eles, de forma bastante engenhosa, criavam a original e então pegavam um pouco mais de argila, envolviam a original como num envelope para que o conteúdo fosse replicado na parte interior.

Quando era hora de acertar o contrato, eles a partiam, abriam e comparavam as duas versões para poder resolver qualquer divergência sobre o que fora acordado. É realmente um exemplo muito antigo da ideia por trás de coisas como o Bitcoin – de que deveria haver uma replicação do livro-razão, mantida por várias partes.

Exemplares das primeiras moedas de que se tem notícia, criadas no Reino de Lídia, em ouro e prata, no século 7 a.C.

SF: Você mencionou a "confiança interpessoal" anteriormente; podemos inferir que há outros tipos de confiança em jogo aqui? E qual é o papel que a confiança desempenha em meio a tudo isso?

BM: Desde o início, o dinheiro, em todas as suas formas, diz respeito à confiança. Mas pode ser sobre diferentes tipos de confiança. Para determinados tipos de objetos que funcionam como dinheiro, o tipo de confiança em pauta é de fato o interpessoal.

Em diversas sociedades em pequena escala há objetos de valor que são frequentemente vestidos ou usados como adorno, indicando relações recíprocas de crédito e débito em andamento.

Se estivermos falando sobre as placas de argila primitivas ou sobre nossa infraestrutura de bancos contemporânea, estaremos falando, então, sobre confiança institucional. Confiamos que existirá durabilidade dos sistemas tecnológicos e políticos que os envolvem e asseguram que esse dinheiro continuará funcionando no futuro.

SF: Então, temos confiança interpessoal e confiança institucional. Elas andam de mãos dadas? E qual o grau de proximidade entre dinheiro e confiança?

BM: Eu, na verdade, diria que dinheiro é confiança. É confiança nas instituições e é confiança nos indivíduos. Eu considero de extrema importância nos lembrarmos dos dois lados, tanto o individual quanto o institucional. Sem a durabilidade institucional, o dinheiro deixa de funcionar. Sem a confiança interpessoal, ninguém o aceitará. Precisamos dos dois lados da moeda para que a coisa funcione.

Assista ao episódio 1 da série Desenvolvido em blockchain: "Confiamos na confiança"

SF: Vamos voltar ao conceito de livro-razão distribuído. Nós conversamos sobre a moeda como um sistema e abordamos a descentralização. Também exploramos as definições de confiança e sua importância fundamental para o próprio conceito de dinheiro. O que acontece a seguir? O blockchain nos leva a que tipo de futuro?

BM: Eu olharia para os usos do blockchain como um livro-razão distribuído e, especificamente, o que podemos obter de um livro-razão distribuído que não podemos obter dos sistemas atuais.

O que você pode obter é um registro da verdade que pode ser verificado, que não está sob o controle de nenhuma autoridade centralizada e que é relativamente incorruptível. Ele realmente expande nossos horizontes para novas formas de imaginar as relações humanas e também as econômicas.

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SF: A criptomoeda e o blockchain têm o potencial para mudar nosso mundo para melhor?

BM: É bem fácil imaginar aplicações para a criptografia e para o blockchain que poderiam realmente beneficiar as pessoas, que poderiam de fato criar meios de inclusão financeira e bancos digitais para tantas pessoas pelo mundo que não têm acesso a canais bancários para transferência ou empréstimo de dinheiro. Podemos imaginar benefícios incríveis para aqueles que estão, neste momento, financeiramente excluídos.

SF: Há preocupações também, naturalmente. Para aqueles interessados em garantir resultados positivos, e que acreditam que essas tecnologias têm um componente social bom para eles, há trabalho a ser feito?

BM: Sempre que houver um sistema tecnológico que envolva pessoas e dinheiro, haverá potencial para abuso. Estamos começando a ver chamadas para responsabilidade de plataforma e para auditorias dos algoritmos que determinam novos tipos de pontuação de risco.

É só uma questão de tempo até isso entrar no universo da criptografia e do blockchain. Eu acho que as pessoas que estão nesse universo agora deveriam estar pensando sobre essas questões antes que os problemas surjam e antes que elas tenham que retirar os experimentos que pretendem liberar.

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Artigo originalmente publicado no blog americano da Udacity

Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.