Idosos e tecnologia: conheça robôs que ajudam a cuidar da terceira idade

Udacity Brasil
16 de mai de 2018

Há cada vez mais idosos no Brasil. De acordo com o IBGE, em 2005, a população com mais de 60 anos representava 9,8% dos brasileiros. Uma década depois, em 2015, essa proporção subiu para 14,3%, mais de 28 milhões de pessoas.

Essa tendência de crescimento pode ser observada em todo o mundo. Até 2050, serão quase 2 bilhões de pessoas com mais de 60 anos no planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde. Isso é uma boa notícia – afinal, as pessoas têm vivido mais tempo.

Mas você já parou para pensar sobre os cuidados que esse número crescente de idosos irá demandar? Como a sociedade pode se preparar para garantir uma boa qualidade de vida às pessoas na terceira idade?

O Japão, que tem a maior proporção de idosos, já pensa nessas questões há um bom tempo. Atualmente, 26,3% da população do país é idosa, de acordo com o World Atlas. Em outras palavras: a cada 4 japoneses, 1 está na terceira idade. É bastante gente.

É por esse motivo que lá se investe tanto em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias que possam auxiliar os humanos nas tarefas que envolvem cuidados e entretenimento de idosos.

Depois do Japão, o ranking de países onde há maior proporção de idosos é composto por Itália (22,4% da população), Grécia (21,4%), Alemanha (21,2%), Portugal (20,8%) e Finlândia (20,5%).

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Idosos e robôs japoneses

É até difícil de acreditar, mas no Japão já existe uma série de robôs desenvolvidos para uso em ambiente doméstico e em casas de repouso, tanto para ajudar a cuidar dos idosos como para diverti-los.

Mas o fato é que, mesmo nos países desenvolvidos, robôs ainda são itens caros. Para se ter ideia, no Japão, o governo concedeu um subsídio de 5,2 bilhões de ienes (47,3 milhões de dólares) em 2015 com o intuito de ajudar a trazer mais robôs para o sistema de atendimento a idosos.

Como o número de nascimentos tem caído nas últimas três décadas, há naquele país uma preocupação real com a mão de obra para cuidar do seu enorme número de idosos. Estima-se que, em 2065, 40% da população japonesa pertença a esse grupo demográfico – e não pode ficar desamparada.

O que poderia ser encarado como um problema por muitos parece, com a ajuda da tecnologia, estar tendo efeito contrário. A escassez de cuidadores e de trabalhadores para casas de repouso têm impulsionado a indústria a desenvolver tecnologia de ponta e usada em robôs que irão ajudar seres humanos.

Como tantos outros, o governo japonês faz questão de enfatizar que os robôs não substituirão os cuidadores humanos, apenas auxiliar o trabalho deles.

E uma curiosidade mostra como a indústria já avançou: o crescente número de robôs com essa finalidade fez com que a Organização Internacional para Padronização (ISO) – iniciativa não-governamental que estabelece padrões para mais de 150 países membros – criasse um padrão que visa garantir a segurança nas interações entre eles e as pessoas, o chamado ISO 13482.

Robôs podem mesmo ser úteis no cuidado com idosos? Ao que tudo indica, sim. "Robôs ajudam as pessoas e melhoraram as atividades humanas. Eles permitem que as pessoas ofereçam cuidados melhores e mais eficientes", explica Wendy Moyle, professora e pesquisadora de envelhecimento e saúde mental na Universidade de Griffith, em uma palestra TEDx.

Hoje já existem robôs para companhia, por exemplo. "Idosos com doenças mentais degenerativas perdem sua capacidade de comunicação e isso normalmente os isola e os torna agitados. Nesses casos, o uso de robôs de companhia incentiva que a pessoa se comunique e reduz o isolamento social", afirma.

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Idosos e tecnologia: por que não?

Muitos se perguntam: "Por que usar robôs para a terceira idade?". A questão pode começar a ser respondida com uma outra pergunta provocativa: "Por que não usá-los?"

Se a tecnologia de ponta é empregada até mesmo na exploração espacial, porque ela não poderia auxiliar uma camada tão vulnerável da sociedade como os idosos?

Foi essa reflexão que inspirou o professor e pesquisador Thomas Bock, da Universidade Técnica de Munique, a estudar o campo da robótica aplicada à terceira idade.

"Assim como um astronauta perdido sozinho no espaço, muitos idosos se encontram desamparados e fracos. Temos que dar apoio e suporte a eles, para que possam se sentir bem e ter uma vida plena", explicou Bock.

Bock afirma que o sentimento de participação social é muito importante para o lado psicológico dos idosos. "Quando estão envolvidos com alguma atividade, eles se sentem felizes e ficam menos doentes", diz o pesquisador.

Se os robôs de companhia podem contribuir com isso, melhor assim.

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6 robôs que já são realidade

A seguir, conheça alguns dos modelos de robôs que existem, tanto em fase de testes quanto em versões comerciais, e que têm sido usados para o cuidado com idosos em diversos países:

PARO

Ele é chamado de "robô terapêutico" por seus criadores japoneses porque comprovadamente reduz o estresse dos idosos, além de motivá-los a socializarem entre si. PARO ainda estimula a interação entre pacientes e cuidadores em casas de repouso, onde vem sendo utilizado desde 2003 – e não só no Japão, mas nos EUA e Europa também.

O robô, projetado na forma de um filhote de foca, é convidativo ao toque e alegra e conforta principalmente os idosos com perda de memória e de capacidades cognitivas. Por ter cinco tipos de sensores diferentes, o robô reconhece quando ganha carinho e responde ao ouvir seu nome, saudações e elogios.

Robear

É uma mistura de corpo humanoide com cabeça de urso. A combinação curiosa deu origem a uma máquina de 1,5 m de altura e 140 kg. Criado pela empresa japonesa Riken, o objetivo do Robear é ajudar a deslocar pacientes e idosos que não estão em condições de se movimentar. Ele pode, por exemplo, pegar a pessoa do sofá e levá-la à cama. A tecnologia ainda se encontra em fase de desenvolvimento, mas a expectativa é que, daqui alguns anos, o robô possa aliviar o trabalho de enfermeiros e cuidadores que precisam carregar idosos.

Asimo

É o robô humanoide da Honda, resultado de duas décadas de pesquisa em robótica. Ele tem 1,3 m de altura e pesa 50kg. Pode correr, andar, pegar objetos, responder a comandos de voz simples e reconhecer rostos. É o único no mundo (até o momento) capaz de subir e descer escadas sozinho.

Segundo informa a Honda, no futuro, o Asimo poderá servir como olhos, ouvidos, mãos e pernas para pessoas necessitadas. Ele poderá ajudar com tarefas importantes, como auxiliar no dia a dia de idosos ou pessoas confinadas a uma cama ou cadeira de rodas.

Care-O-bot 3

Desenvolvida ao longo de 15 anos por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, a máquina foi pensada para oferecer diferentes tipos de suporte aos idosos – desde servir bebidas até lembrar a pessoa que ela deve tomar um remédio.

Em casos de emergência, como a queda de um idoso, ele serve como interface de comunicação para socorro. O robô tem câmeras e sensores 3D, além de uma plataforma omnidirecional com quatro rodas, o que permite que ele se mova com segurança em qualquer direção desejada, mesmo em passagens estreitas.

De maneira autônoma, ele é capaz de calcular e seguir o melhor caminho para determinada tarefa, sem colisões. Obstáculos dinâmicos, como seres humanos, são detectados automaticamente. Para os movimentos de manipulação e agarramento de objetos do dia a dia, o robô é equipado com um "braço" leve e flexível e também uma "mão" com três dedos.

Graças a sensores táteis, ele sabe como ajustar a força para cada objeto que precisa segurar. Embora já possa ser comprado por cerca de £180 mil (algo em torno de 850 mil reais), a equipe trabalha para tornar o preço mais acessível e popularizar o uso.

AMY Telepresence Robot

É um robô americano amigável e disposto a ajudar. A máquina é capaz de reconhecer vozes, responder perguntas, se locomover pelo espaço autonomamente, sabe recarregar a própria bateria e permite transmissão em tempo real de vídeo, voz e mensagens, o que aproxima os idosos de familiares e permite um monitoramento de suas atividades.

Ele também pode ser conectado os eletroeletrônicos da casa para que tudo se controlado de maneira automatizada, do acender e apagar de luzes até a temperatura do ar-condicionado. Já está à venda por 8 mil dólares. Pode ser customizado para uso em hospitais e casas de repouso e o controle acontece por meio de um app para smartphone.

MiRo

É um robô em forma de cachorro. Cheio de funcionalidades práticas, ele ainda serve como companhia, quase como um pet de verdade. Como qualquer cão, ele abana o rabo, produz sons, adora carinho e "dorme" para recarregar a energia (literalmente!).

A invenção é assinada pela startup inglesa Consequential Robotics, fundada por um designer, um especialista em robótica e um pesquisador de inteligência artificial. Microfones, câmeras 3D e sensores infravermelhos, de luz e de temperatura são algumas das tecnologias empregadas.

O MiRo custa £ 2,2 mil (cerca de R$ 10,7 mil) e a empresa lembra que o produto é customizável, ou seja, trata-se um robô autônomo totalmente programável para que pesquisadores, desenvolvedores e profissionais de saúde possam adequá-lo aos usos que quiserem.

Idosos e tecnologia: a realidade no Brasil

No Brasil, a relação entre idosos e tecnologia ainda parece distante da realidade – pelo menos por enquanto. É muito provável que, com o passar do tempo e o crescimento do potencial mercado consumidor, empresas comecem a investir no assunto.

Mas e os gerontólogos brasileiros, profissionais especializados no cuidado com idosos, o que pensam sobre tudo isso? Em entrevista concedida à Udacity, Luiz Phellipe Dell' Aquila, bacharel em gerontologia e diretor de suporte à profissão da Associação Brasileira de Gerontologia, falou sobre o tema:

Udacity: Como é o uso de tecnologias no cuidado a idosos no Brasil hoje em dia?

​Luiz Phellipe Dell' Aquila: Atualmente existem tecnologias que auxiliam no cuidado com a pessoa idosa, porém a grande maioria dos processos e cuidados são realizados por humanos. ​ ​Há uma tendência para que novas tecnologias cresçam na área da Gerontologia, desde a elaboração de dispositivos para a saúde até a criação de aplicativos que monitoram as atividades de vida diária dos idosos mais independentes, para prevenção de quedas, monitoramento de pressão arterial e condições de saúde, bem como lembrar os idosos a hora correta para tomar medicamentos.

O mundo ainda não sabe lidar com o envelhecimento populacional e, nesse sentido, acreditamos que a tecnologia poderá auxiliar a compreensão das diversas dimensões do envelhecimento e a entender as diferentes formas de envelhecer, uma vez que esse processo é dinâmico e é aquele que passamos a maior parte de nossas vidas – pois o ser humano em geral passa cerca de 20 anos na fase da velhice.

Muitas pessoas acham que os idosos são todos iguais, mas cada pessoa envelhece de uma forma, trata-se de um processo multifatorial, individual e único.

UDACITY: Quais os pontos positivos e negativos de um uso maior de de recursos tecnológicos no cuidado com idosos?

​Luiz Phellipe Dell' Aquila: ​Acreditamos que o maior ponto negativo da adoção de recursos tecnológicos no cuidado com idosos é justamente a perda da impessoalidade e a desvalorização do ser humano no cuidado, pois durante o processo de envelhecimento, é natural que a pessoa reduza sua rede de suporte social, passando a contar apenas com as pessoas mais próximas e familiares. Tal redução pode acarretar um isolamento social e em alguns casos extremos contribuir para fatores depressivos. Nesse ponto, a tecnologia pode ser um fator negativo para o envelhecimento, por promover o distanciamento entre as pessoas.

Em relação aos pontos positivos da tecnologia para o cuidado com idosos, é notável que daqui a dois anos, aproximadamente, a população idosa corresponderá a cerca de ¼ da população brasileira. Isso causa impacto em diversas áreas da sociedade, como: economia, saúde, desenvolvimento social, entre outras.

Na área da saúde, diversas ferramentas de big data, machine learning e analytics têm sido utilizadas para compilação e análise de dados epidemiológicos e de saúde desta parcela representativa da população, como incidência de doenças, comorbidades e doenças crônicas.

Somente com a análise desses dados a indústria farmacêutica e de saúde conseguirá desenvolver produtos e medicamentos específicos para essa população.

Na economia, ferramentas de data science e analytics permitem realizar prospecções de aposentadoria para os próximos anos, bem como predizer o futuro das operações bancárias e a saúde financeira do país e quem sabe do mundo, uma vez que hoje o mercado de trabalho é regido massivamente pela parcela produtiva da população.

UDACITY: Quanto tempo levará para que o Brasil comece a adotar robôs, como o Japão tem feito, para entreter idosos, fazer companhia ou até mesmo cuidar deles?

Luiz Phellipe Dell' Aquila: ​Muitos anos serão necessários ainda para que o Brasil adote a mesma tecnologia que o Japão tem oferecido ao cuidado de pessoas idosas. A automação dos cuidados já tem ocorrido, porém de forma muito tímida e quase sempre intermediada pela ação humana.

A falta de incentivo e investimento pelo governo e empresas privadas do setor de engenharia robótica, associadas ao alto custo de produção é um fator crucial para o baixo desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial e robótica. Mesmo no Japão, a engenharia robótica ainda têm pontos a serem melhorados, uma vez que oferecem um cuidado artificial.

Acreditamos na formação de profissionais da área de robótica associada ao conhecimento de profissionais capacitados e que conheçam a fundo o processo de envelhecimento, como o gerontólogo, para o desenvolvimento de tecnologias eficientes e que atendam as expectativas de idosos e seus familiares.

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