19 de nov de 2018

Inteligência artificial na gestão pública: desafios e oportunidades

Udacity Brasil

Em um país de grandes dimensões e com uma máquina administrativa bem ramificada e complexa, o controle da gestão pública não está livre de erros — aliás, longe disso. É para diminuir o número de falhas que alguns órgãos brasileiros têm apostado em iniciativas de automatização de processos de gestão, investindo na ciência de dados e no uso de inteligência artificial, por meio do aprendizado de máquina (machine learning), para tornar a administração pública mais eficiente.

Há quatro anos o Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU) e a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) promovem um seminário para compartilhar experiências sobre análise e mineração de dados para melhoria da gestão pública. Este ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) realizaram eventos parecidos, o que mostra a força que essas práticas vêm ganhando no cenário brasileiro.

O Observatório da Despesa Pública, unidade ligada à CGU, foi um dos primeiros palcos de projetos desse tipo, ao implementar o Modelo de Análise de Risco na Administração, programa que automatiza a detecção de casos de corrupção. “Não dá para olhar tudo na mão, então fizemos um trabalho de aprendizagem supervisionada para treinar o algoritmo a fazer isso com a gente. É o projeto mais antigo e mais maduro dessa área em órgãos públicos”, explica o cientista de dados Thiago Marzagão, um dos responsáveis pela iniciativa.

Alimentado por um banco de dados que contém informações sobre servidores que já foram expulsos do Governo Federal por corrupção ou por outros motivos, o modelo consegue identificar as características mais comuns das pessoas que são exoneradas (e também as das que não são) e calcular a probabilidade de um funcionário atual ser corrupto (observa-se, por exemplo, se o cargo é por indicação). “A partir dessa análise, conseguimos priorizar as investigações. Então, a principal vantagem da ferramenta é alocar melhor os recursos, usar melhor o tempo e a mão-de-obra”, diz Thiago.

Para ele, outro benefício do uso desse tipo de tecnologia é colaborar com a transparência dos órgãos públicos. “Quando você automatiza tarefas de identificação de problemas, você pode mostrar as coisas para a sociedade de maneira mais imediata”, defende. “O que poderíamos fazer no futuro, por exemplo, é disponibilizar essas informações para a sociedade e pedir a contribuição das pessoas em certas situações, como por meio de denúncias.”

Thiago Marzagão apresenta seu trabalho no Observatório de Despesa Pública (em inglês)

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Desafios

Apesar dos avanços, Thiago conta que entraves burocráticos, como aqueles envolvidos na aquisição de ferramentas e no recrutamento de profissionais qualificados, podem ser um desafio para a implementação de mais mecanismos de inteligência artificial no setor público. “São muitas amarras. É um trabalho diário de convencimento, de mostrar que dá resultado, para que a gente possa fazer o que precisa ser feito”, comenta.

Nesse sentido, as parcerias público-privadas podem ser uma boa alternativa. É aí que entra o trabalho da Linte, uma das vencedoras do programa de aceleração BrazilLab, que premia soluções tecnológicas voltadas para o poder público. “Essas parcerias têm um papel fundamental, porque viabilizam a atuação em conjunto de organizações públicas e privadas. O Estado já tem muitas atribuições e dificilmente vai investir em tecnologia. As empresas podem trazer mais inteligência para os dados públicos”, defende Gabriel Senra, fundador da Linte.

A proposta da startup é tornar a gestão de processos e contratos mais eficiente. “Fazemos isso por meio de um software de automação de documentos e de workflow, que facilita a geração de documentos jurídicos, principalmente contratos, e dá mais autonomia para as pessoas lidarem com as operações, tornando-as cada vez mais previsíveis, controladas e ágeis”, diz Gabriel. “O que a gente faz é escalar a operação jurídica para que ela seja rápida e segura com a preservação máxima de dados que normalmente são desperdiçados.”

Gabriel Senra, da Linte, fala sobre direito e tecnologia

Ele explica que esses dados podem estar, por exemplo, em trocas de e-mails ou transações manuais. Na gestão pública, a ideia é processar e produzir documentos, como licitações, ofícios e execuções fiscais, de forma mais rápida, aumentando a produtividade. Depois de vencer o BrazilLab no ano passado, a Linte já está em contato com prefeituras, secretarias estaduais, o Tribunal de Justiça de São Paulo e um banco de desenvolvimento para criar iniciativas conjuntas.

Para Gabriel, o grande desafio do processamento de dados na administração pública antecede o uso das tecnologias e reside no armazenamento e na disponibilização dessas informações. “A gente tem cada vez mais condições, do ponto de vista tecnológico, de processar esses dados, mas eles precisam estar disponíveis. Muitas vezes a gente trabalha com sistemas diferentes que não conversam. Então, antes de falar em adoção da tecnologia, precisamos garantir que os dados sejam armazenados de forma estruturada e disponibilizados”, diz.

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Caminho para o futuro

Thiago e Gabriel acreditam que o uso da análise de dados e do aprendizado de máquina é um caminho bastante proveitoso para o futuro da gestão pública no país.

“Assim como todas as outras tecnologias, isso vai contribuir para o desenvolvimento social e para que a gente consiga usar os dados disponíveis de uma forma inteligente e interessante para a sociedade”, diz Gabriel. Ele conta que na gestão das cidades, por exemplo, várias ações de planejamento de tráfego, educação e segurança podem ser tomadas a partir da interpretação de dados.

Segundo Thiago, as ferramentas que o Brasil já tem disponíveis, como as usadas por ele na CGU, têm grande potencial e são, inclusive, bem avançadas se comparadas com o que ele observa em outros países — afinal, não poderia ser de outra forma. “Não tem outro jeito. O Estado brasileiro é gigante e não dá para olhar tudo na mão. Ou a gente automatiza ou não olha para esses dados”, diz. O próximo passo, para ele, é ajudar o cidadão a interpretar as informações obtidas. “Temos que mostrar não só os dados brutos, mas onde estão os problemas.”

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.