10 de out de 2018

Conheça a bilionária cena de investimentos em startups no Brasil

Udacity Brasil

O Brasil é a bola da vez e lidera investimentos em startups na América Latina. Um estudo da plataforma CB Insights, empresa que oferece um software para prever as próximas grandes tendências tecnológicas ou startups bilionárias através de big data, indica que o país recebeu 4,2 bilhões de dólares em startups desde 2012. Em 2016, foram 605 milhões de dólares, com um salto para 1,15 bilhão de dólares em 2017.

E não é só. A Associação Latino-Americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca) aponta que o Brasil recebeu o triplo de investimentos em startups em 2017 (R$ 859 milhões), comparado a 2016 (R$ 279 milhões).

Por quê? Na avaliação de Arthur Garutti, sócio e COO da ACE, um dos maiores hubs de investimentos em startups e inovação corporativa da América Latina e parceiro do Nanodegree Startup Founder, a resposta pode estar ligada à densidade demográfica de proporções continentais somada às ineficiências em setores estruturantes. A união destes fatores pode ter transformado o Brasil em “um país de grandes oportunidades”, resume.

E com um atrativo a mais: o fator cambial. "O ciclo virtuoso continua. Nos últimos seis anos, o número de startups no Brasil quadruplicou, o volume de investimentos só cresce e cada vez mais não-empreendedores ‘natos’ passam a enxergar esta trilha como algo possível", explica.

"É notório o crescimento de startups fundadas por ex-executivos, pessoas mais próximas dos 40 anos, com muita experiência adquirida. E esta mescla é extremamente saudável."

Os investidores de olho na América Latina

O relatório da Lavca destaca que os investimentos em capital de risco na América Latina ultrapassaram 1 bilhão de dólares pela primeira vez em 2017, dobrando o volume comprometido com startups em 2016.

De acordo com a entidade, o investimento crescente coincide com o surgimento do continente como um mercado estratégico para uma lista crescente de empresas globais de tecnologia.

A Lavca indica que, no primeiro trimestre de 2018, três startups de tecnologia (brasileiras!) ultrapassaram as avaliações de 1 bilhão de dólares: 99, Nubank e PagSeguro.

A diretora de venture capital (VC) da Lavca, Julie Ruvolo, relata que houve algumas rodadas de VC para a América Latina no ano passado e destaca os 200 milhões de dólares investidos na 99 por SoftBank, Didi Chuxing e Riverwood Capital.

"Rodadas desse tipo ajudaram o Brasil e a região toda bater recorde o ano passado, mas a verdade é que o crescimento foi através de todas as etapas de VC deals, crescendo de 197 em 2016 para 249 em 2017 só no Brasil", aponta.

Segundo o estudo, os setores que mais receberam investimentos na América Latina, se considerarmos apenas o número de negócios, são: fintechs (29%) e marketplace (11%). Em Outros (18%) estão inclusos setores variados como segurança, infraestrutura, marketing, telecomunicações, vídeo e Internet das Coisas.

Se considerarmos o montante de investimento ao invés da quantidade de contratos, temos: marketplace (34%), transporte e fintechs (ambos com 20%). E interessante notar que, embora esteja em segundo lugar em volume, o setor de transporte é responsável por apenas 2% do número total de negócios.

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Dados do relatório "Inside Latin America’s Breakout Year in Tech", da Lavca

"Os investidores vêm de todo lugar. [São] principalmente do Brasil, mas a gente também repara que tem um crescimento de investidores de fora em startups na América Latina", afirma Julie Ruvolo.

"Vamos sair do passado. O jogo agora é global, não fica só no Vale do Silício como era uns quinze anos atrás. Além do crescimento de capital para startups na região, é também interessante anotar que os gigantes globais de tecnologia estão cada vez mais interessados no mercado latino-americano, inclusive Amazon, Google, Facebook, Netflix, Spotify, Airbnb, WeWork, Didi Chuxing, Uber."

Por que o Brasil é um mercado atraente na região

O estudo do CB Insights destaca que, dentro da América Latina, o Brasil atraiu mais de três vezes o número de negócios que o México. Entre 2012 e 2018, o país alcançou o número de 721 investimentos em startups contra 235 dos mexicanos. Além disso, negócios brasileiros levantaram 4,2 bilhões bilhões desde 2012 - quase sete vezes mais do que o México ou a Argentina.

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Número de acordos de investimento na América Latina entre 2012 e 2018, segundo levantamento da CB Insights

"O Brasil está encerrando o seu primeiro ciclo de desinvestimentos dos principais fundos, o que significa que algumas métricas de sucesso e boas práticas passam a dar um excelente aprendizado das peculiaridades de nosso ecossistema", afirma Arthur Garutti. "Os bons resultados dos últimos 24 meses – com diversas saídas, IPO (do PagSeguro) –, aliados a um movimento de certa forma ‘anti-cíclico’ à recessão do país, acabam colocando o Brasil em posição privilegiada na região, atraindo o olhar de investidores estrangeiros."

Segundo Arthur, o fator cambial também ajuda: "o tamanho de um seed money nos EUA, quando convertido a câmbio de 4 reais, acaba colocando o país em uma posição privilegiada".

Arthur Garutti destaca ainda que “os asiáticos aumentaram bastante o apetite por investimentos no Brasil”. Neste universo, a China é a protagonista, já que investe cada vez mais em negócios voltados a tecnologia - é campeã em crescimento da indústria robótica, por exemplo.

"Países do Oriente Médio, com atuação de fundos soberanos, também têm aumentado a atuação. Mas geralmente este capital é aportado via FIPs [Fundos de Investimento em Participações] montados por gestores brasileiros, com grande reputação no ecossistema, e estes estrangeiros entram como LPs [limited partnership] dos fundos", explica.

Mas não basta esperar que os investidores batam à porta para então arrumar a mesa. O COO da ACE diz que um dos fatores que levou o Nubank e a 99, por exemplo, a se destacarem tanto foi ter equipes excelentes e um timing perfeito. "Tanto o time fundador quanto a data de lançamento das plataformas foram fundamentais para que estas startups atingissem o product-market-fit com assertividade", diz Garutti.

"Souberam também, desde o início, construir relações com investidores estratégicos e de classe mundial. Mostraram-se como a ‘best in class’ do seu país, e corroboraram isso com execução focada. Parece fácil falando assim, mas o que Nubank e 99 fizeram é realmente uma lição de resiliência para qualquer empreendedor", aponta.

Leia também: Data science e Nubank: por que esta fintech investe tanto em cientistas de dados

Os mega-rounds e o aumento dos negócios

Um dos trechos do relatório do CB Insights liga o aumentos dos investimentos no Brasil às "mega-rounds", que são as rodadas acima de 100 milhões de dólares. Os dados apontam que o país teve oito das dez maiores rodadas da América Latina desde 2012.

O site de viagens argentino Decolar ocupa a primeira posição graças a uma rodada de 270 milhões de dólares de minorias corporativas no primeiro trimestre de 2015 da Expedia. O Nubank ocupa uma das posições e arrecadou US$ 605 milhões em financiamento em 10 rodadas. Já a 99 está em duas posições com o valor de US$ 100 milhões.

Na avaliação de Arthur Garutti, as mega-rounds acompanham a maturidade do ecossistema. "Como temos muito mais startups com alto product-market-fit, base de usuários relevante e máquina de crescimento data-driven, será cada vez mais comum o Brasil acompanhar essa tendência global." Pensando em quem puxará as próximas grandes rodadas, ele aposta em empresas do setor de saúde, financas e agronegócio para os próximos dois anos.

Por que a maioria das startups falha? Instrutor da Udacity responde!

E o que fazer caso a empresa ainda não tenha todo esse porte? É a outra oonta: as rodadas semente, ou seed rounds. "Também estamos enxergando um aumento substancial desse ticket médio, visto que a Yellow, ainda pré-operacional, levantou US$ 9 milhões sem ter uma bike na rua. É, mais uma vez, reflexo do ciclo virtuoso em que estamos."

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Antes de pensar no cheque, no entanto, o importante é pensar no cliente e naquilo que ele precisa ou deseja. Com um bom fit entre mercado e produto, num país com mais de 200 milhões de habitantes, "o produto se mostra com alto potencial de escalabilidade".

E não basta ter uma boa ideia – nem esperar resultados rápidos. "Execução incessante, pensamento gigante e muita, mas muita resiliência parecem ter sido a pedra fundamental de todos os cases de mega-rounds do Brasil, quiçá do mundo", fala Garutti.

Ele continua: "Empreendedores desta linhagem são incansáveis na busca do sonho grande. Preferem morrer tentando ficar gigantes do que virarem lifestyle business, e moldam as suas culturas de maneira muito particular, atraindo e retendo talentos com o mesmo propósito".

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.