11 de jul de 2018

Quem é Lil Miquela, a digital influencer totalmente virtual com 1,3 milhão de seguidores

Udacity Brasil

Ela vive em Los Angeles e sai com artistas conhecidos vestindo grifes como Diesel, Moncler, Supreme e Chanel. Fez campanha para a Prada durante a Semana de Moda de Milão. Lançou uma coleção de joias com a designer Melody Ehsani e também a própria linha de camisetas — cuja renda seria revertida para as vítimas dos incêndios que castigaram a Califórnia em 2017. Até singles no topo das paradas do Spotify ela tem: "Not Mine" e "You Should Be Alone", duas faixas em auto-tune. Tudo isso sob os holofotes e cliques de um público de 1,3 milhão de seguidores no Instagram.

A descrição de Lil Miquela, uma brasileira de 19 anos, caberia à qualquer influenciadora das redes sociais, não fosse por um detalhe: ela é um personagem totalmente virtual, uma CGI animada em computador e editada ao lado de pessoas e cenários reais.

Por trás de sua criação está uma startup baseada em Los Angeles, a Brud, sobre a qual não se sabe muita coisa além do fato de ser supostamente especializada em inteligência artificial e robótica aplicadas ao mercado de mídia.

O nicho é, de fato, promissor. Influenciadores digitais têm ganhado cada vez mais espaço entre as marcas e mudado a dinâmica do mercado em alguns setores, como lifestyle e beleza. “Com o Instagram, garotas de todo o mundo acabaram se transformando em plataformas de conteúdo, com mais seguidores que grande parte da mídia estabelecida. Elas vendem e geram movimentos de consumo”, explica a jornalista de moda Renata Piza.

No vídeo acima, o site The Cut recria Lil Miquela

O poder de digital influencers

No ano passado, pela primeira vez, a Forbes incluiu influenciadores em seu ranking das figuras mais bem pagas do mundo. Os youtubers lideram as receitas, podendo receber até 300 mil dólares por um post. Blogueiras de Instagram, como Lil Miquela, não ficam muito atrás, chegando à metade dessa cifra. “Para as marcas, muitas vezes esse é um recurso excelente, com investimentos relativamente baixos e retorno quase certo”, diz Renata.

Uma pesquisa do youPIX de 2016 mostra que 60% dos influenciadores digitais com mais de um milhão de seguidores são homens. Segundo levantamento da agência Apex em 2017, porém, a proporção se inverte no Instagram. Para Renata, essas mulheres têm grande impacto nas decisões do público.

“Elas viraram grandes curadoras, vendem lifestyle. Mudaram também a velocidade das compras: você vê e quer comprar no ato. Não à toa, o next goal do Instagram é gerar o clique imediato para a compra. E tudo isso é retroalimentado pelas grifes, claro.”

Apesar de ser uma imagem criada por computador — ou talvez por causa disso —, Lil Miquela cumpre todas essas expectativas. A Brud não revela quanto dinheiro a personagem movimenta nesse mercado (nem se ela de fato recebe alguma coisa das marcas), mas Miquela preenche todos os padrões de beleza e lifestyle de uma típica influenciadora do Instagram. “Ela tem o estilo que está em alta: o de cantoras como Dua Lipa, essa estética Gucci, streetstyle de luxo. Até o tênis do momento, o Buffalo, ela usa”, avalia Renata.

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O boom e a polêmica dos personagens virtuais

Miquela é um case de sucesso, mas não é a única personagem de CGI criada para ser influenciadora digital. Usando uma tecnologia similar, o fotógrafo britânico Cameron-James Wilson idealizou a modelo Shudu, que já acumula quase 130 mil seguidores.

“Miquela está apenas arranhando a superfície do que esses humanos virtuais podem fazer e podem ser”, disse à _Wired_ Morgan Young, CEO da startup Quantum Capture, que trabalha na criação de seres humanos digitais para aplicativos de realidade virtual, aumentada e mista.

Em abril, a própria Miquela teve sua conta do Instagram hackeada por outra bot, chamada Bermuda, que se autoproclamava “supremacista robô” e defensora do governo de Donald Trump. O episódio — apesar de ter sido interpretado como um golpe de marketing da Brud — gerou alvoroço, já que Bermuda exigiu de Miquela que revelasse a todos a verdade: ela não era um ser humano. A blogueira se manifestou sobre a dificuldade de “assumir” que não era uma pessoa real.

O professor de Estudos da Internet da Curtin University Tama Leaver acredita que isso nos leva para um futuro cenário de ficções como Black Mirror ou Westworld. “É a idéia de que um personagem, uma entidade ou um software está ganhando algum nível de consciência além de seu propósito original”, afirmou em entrevista à ABC News. Para Adam Rivietz, cofundador da agência #paid, a preocupação é de outra ordem, mais realista: a confiança das pessoas nesses personagens. “Eles não são pessoas reais, então eles não podem dar uma opinião totalmente autêntica”, disse à Wired.

Confrontada sobre sua falta de autenticidade em uma entrevista concedida ao youtuber Shane Dawson, Miquela se defendeu: “Você pode citar uma pessoa no Instagram que não edite digitalmente suas fotos?”.

A despeito dos receios, parece que os humanos virtuais vieram mesmo para ficar. “Acho que para algumas pessoas o digital vai acabar entrando como avatar mesmo. Você pode ser o que quiser, inclusive não ter mais corpo”, avalia Renata. E questiona: “O que é real, afinal? Tudo é meio fabricado nos filtros das redes sociais.”

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.