6 de ago de 2018

Por que (e como) a China quer dominar o mercado de carros elétricos

Udacity Brasil

Explodir algo para se locomover pode parecer uma ideia saída de um desenho animado. No entanto, é isso que praticamente todos os carros, motos e caminhões do mundo fazem atualmente. Apesar dos avanços tecnológicos dos últimos anos, automóveis movidos por motores a combustão e combustíveis fósseis ainda são a regra no setor de transporte.

De acordo com a OICA (Organização Internacional de Fabricantes de Veículos Motorizados), foram vendidos mais de 96,8 milhões de veículos em 2017. Desse total, cerca de 98% usam combustão.

Devido aos comprovados efeitos nocivos de gases poluentes no planeta, isso deve mudar nas próximas décadas com um forte empurrão internacional. A Alemanha, por exemplo, já se comprometeu a não permitir mais o licenciamento de carros a combustão no seu território até 2030. A França tomou uma medida semelhante, mas estendeu até 2040 o prazo em suas fronteiras.

E não se trata apenas de uma iniciativa de governos: as próprias montadoras já estão enxergando a mudança e tomando iniciativas para fazer a transição de seus produtos para uma realidade elétrica. A Volvo, por exemplo, anunciou que produzirá apenas carros híbridos ou elétricos a partir de 2019. E de acordo com relatórios da indústria automobilística, a BMW pode parar de produzir carros movidos a combustíveis fósseis a partir de 2024.

Com esses anúncios e medidas, empresas e governos ocidentais parecem estar se preparando para um futuro sem combustíveis fósseis. Nesse sentido, no entanto, estão bem atrasados se comparados com um país em particular: a China.

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A arrancada dos carros elétricos chineses

Ainda de acordo com a OICA, a China é o maior mercado mundial de carros. Só em 2017, foram vendidos mais de 29 milhões de veículos por lá, quase 50% a mais que na Europa inteira.

E quando o assunto é carros elétricos, o país também não fica atrás: segundo a Bloomberg New Energy Finance (BNEF), faz três anos que os chineses ultrapassaram os americanos e se tornaram o maior mercado do mundo.

E não é só comprar que está na lista: a China também pretende despontar na produção de baterias para esses novos veículos. Ainda de acordo com o BNEF, o gigante asiático deverá ser responsável pela produção de 70% das baterias de carros elétricos até 2021.

A estimativa é surpreendente, mas realista. Segundo o MIT Technology Review, em junho, a fabricante chinesa de baterias de íons de lítio Contemporary Amperex Technology (CATL) arrecadou mais de um bilhão de dólares em seu IPO.

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A oferta inicial de ações da empresa teve tanto sucesso que o valor de seus papeis ultrapassou o valor máximo permitido pelo governo por três dias seguidos – e criou três novos bilionários no país, incluindo o fundador da CATL, Zeng Yuqun.

Atualmente, a CATL já é uma das maiores produtoras de baterias elétricas do mundo e capaz de entregar mais de 17 gigawatts-hora de células de íons de lítio por ano. Com o dinheiro arrecadado no IPO, ela pretende expandir esse número para mais de 90 gigawatts-hora até 2021 – e já está com vagas abertas para tanto trabalho.

Para se ter uma ideia do que estamos falando, um gigawatt-hora de energia é o equivalente a um milhão de kilowatts-hora. Ou seja, um gigawatt-hora é capaz de manter abastecidas cerca de um milhão de casas com padrão médio de consumo por hora.

Com essa expansão, segundo um dos analistas de mercado ouvidos pela BNEF, a CATL deverá ser capaz de produzir mais baterias para carros elétricos do que a Tesla. A montadora de carros elétricos semi-autônomos de Elon Musk – defensor ferrenho da tecnologia – é uma das principais fomentadoras desse mercado no Ocidente.

E o crescimento da CATL também colocará a empresa à frente das fornecedoras que atualmente fazem as baterias de carros elétricos da GM, Nissan e Audi, permitindo que atinja essas empresas também.

Com as mudanças, a China pretende se tornar para os carros elétricos o que a cidade norteamericana de Detroit foi para os carros a combustão: um símbolo.

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Subsídios do governo chinês para baterias de carros elétricos

Atribuir essa postura agressiva da China nesse mercado à iniciativa privada seria errado, visto que o governo chinês teve um papel crucial nesse processo. Esse papel pode ser resumido em duas medidas: uma relacionada a subsídios à indústria nacional, a outra à adoção de políticas ambientais.

Com relação aos subsídios, segundo o MIT, a China oferece incentivos à sua indústria nacional de automóveis. Isso ajuda os carros chineses a serem mais competitivos no mercado doméstico, mas também incentiva as empresas a produzirem no país em vez de importar, o que ajuda a gerar emprego.

Além disso, em diversas cidades, quem quiser comprar um carro a combustão precisa entrar numa loteria para conseguir uma placa ou comprá-la em leilões bastante caros. Carros elétricos, no entanto, podem ter cotas garantidas ou mesmo serem isentos do sorteio.

Recentemente, o governo também mudou as regras do subsídio para que apenas carros elétricos com baterias fabricadas na China possam se beneficiar deles. Naturalmente, isso representa um forte incentivo para que as empresas invistam na produção de baterias por lá.

Essa mudança também teve o objetivo de levar as empresas a investir mais em qualidade e tecnologia, visto que o subsídio estava condicionado à densidade energética da bateria. Ou seja: não bastava que o carro tivesse uma bateria elétrica feita na China, ela precisava ser de boa qualidade.

Para realizar essa transição, as fabricantes passaram a investir em novas tecnologias para a produção das baterias, como a substituição do cobalto (um metal escasso no mercado) por níquel. Segundo um especialista do BNEF, essa medida gerou um enorme crescimento na qualidade das baterias e a busca por tecnologias que não teriam sido estudadas de outra forma.

Por um lado, essas regras em torno do subsídio acabaram prejudicando empresas menores que não tinham condições de investir para atingir as metas colocadas pelo governo chinês. Por outro, no entanto, acabou consolidando o mercado em torno de seus agentes mais competitivos – entre elas a CATL, que pode se tornar líder global.

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Incentivos ambientais que favorecem os carros elétricos

Outra medida importante tomada pelo governo chinês que acabou favorecendo essa indústria, segundo o Quartz, foi a adoção de uma política de créditos de carbono praticamente idêntica à que existe no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.

Trata-se do “Zero Emission Vehicle program”, que também foi adotado por nove outros estados dos EUA desde sua criação. Ele exige que as montadoras de automóveis que atuam no território produzam e vendam um número de carros elétricos proporcional ao total de carros que vendem naquela região.

Cada carro elétrico vendido pela montadora gera a ela um certo número de créditos. E se no final do ano a empresa não tiver créditos suficientes, precisará comprar créditos de outras montadoras ou empresas que tenham gerado mais créditos do que precisam.

Atualmente, é preciso que cerca de 2,5% das vendas de carros de uma montadora venham de carros elétricos para que elas tenham os créditos necessários. A ideia é que esse valor aumente aos poucos: em 2025, estima-se que a exigência seja de cerca de 8%.

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Na China, essa política recebeu o nome de “New Energy Vehicle Mandate”. A principal diferença é que ela tem metas ainda mais desafiadoras para as empresas e as montadoras chinesas ainda enfrentam o desafio de vender carros elétricos a um público-alvo disposto a pagar bem menos do que os consumidores ocidentais.

Tanto a proposta chinesa quanto a estadunidense têm duas vantagens. A primeira é incentivar as montadoras a investir em carros elétricos. A segunda, mais indireta, é criar um mercado de créditos que acaba incentivando toda a economia a ser mais favorável ao meio-ambiente.

Isso porque as empresas que não atingem sua meta de créditos precisam comprar de quem produz em excesso e isso representa uma vantagem imensa para empresas com políticas ambientais melhores. Em alguns casos, é justamente essa venda de créditos que viabiliza o funcionamento dessas empresas.

A Tesla, por exemplo, ganha bilhões de dólares vendendo créditos desse tipo a outras fabricantes, segundo o Quartz. Em maio, segundo a CNBC, a empresa declarou que espera ter seu primeiro trimestre lucrativo na segunda metade de 2018.

Ou seja: até agora, a Tesla não ganhou dinheiro e a venda de créditos é uma das maneiras pelas quais a empresa de Musk conseguiu se manter na ativa.

Os objetivos da China no mercado de carros elétricos

Naturalmente, um domínio do mercado de baterias para carros elétricos colocaria a China numa posição econômica vantajosa. Considerando que carros desse tipo devem se tornar cada vez mais populares (e obrigatórios), o país estará pronto para atender uma demanda crescente.

Além disso, a China também tem desafios de energia com os quais se preocupar: em alguns locais, a distribuição tem quedas, seja porque ela depende de uma fonte inconstante de geração ou porque o consumo em horários de pico excede a capacidade de geração.

E baterias, nesse caso, podem ajudar. Por isso, o país está construindo uma bateria gigante de 800 megawatts-hora na cidade de Dalian, que deve ser ligada a partir de 2020. A ideia é armazenar a energia excedente gerada em momentos de baixo consumo para oferecer essa energia em horários de pico se necessário.

O investimento em energia limpa também representa um esforço de saúde pública: estima-se que haja 1,6 milhão de mortes prematuras no país devido à poluição. E ainda de acordo com o MIT, o investimento também pretende colocar o país como líder no combate às mudanças ambientais e aumentar seu soft power no tema. Em outras palavras, ajuda a solidificar a reputação da China como potência e líder em questões globais.

E entre o governo e gigantes como a CATL, há espaço para mais gente. Empreendedores veem o cenário com grande otimismo e já há mais de 300 startups "na cauda da Tesla", como definiu a Nikkei.

Os motivos, como se vê, são diversos mas convergem rumo a um futuro diferente para China e para o mundo. Fotos de uma Pequim poluída viraram um infeliz lugar comum nos últimos anos. Só em 2017, no entanto, 59 mil novos carros identificados com uma curiosa placa verde começaram a circular pela cidade – e potencialmente mudar esse cenário.

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