5 de jun de 2018

Como a Moeda usa blockchain para oferecer microcrédito a agricultoras brasileiras

Udacity Brasil

Se você tem algum interesse em tecnologia, já deve ter ouvido falar em blockchain, mas dificilmente o termo tinha a ver com brasileiras na zona rural do Brasil. No entanto, há uma empresa que está usando o blockchain justamente para empoderar essa população.

Trata-se da Moeda, uma fintech fundada por Taynaah Reis que levantou 20 milhões de dólares por meio de uma oferta inicial de moeda (ICO) em 2017 e trabalha em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Esse capital será usado na concretização da missão da empresa, que é dar a pequenos produtores rurais o acesso a crédito e serviços bancários dos quais muitos deles ainda estão excluídos. Em 2016, brasileiros não bancarizados somavam quase 20 milhões em 2016 e aqueles sem acesso a financiamento são ainda mais numerosos.

Na TED Talk acima, Taynaah Reis explica como a Moeda funciona e porque blockchain tem o potencial de revolucionar transações

A história da Moeda

Taynaah, a CEO da startup, começou a programar quando tinha 12 anos fazendo seus próprios sites e pequenos trabalhos de front-end. Aos 17, já participava de projetos dos Ministérios da Saúde e da Integração Nacional. “Meus projetos nessa época já tinham esse foco em dados e usá-los na tomada de decisões”, lembra.

Ela já tinha alguma proximidade com o governo por conta de seu pai, que foi um dos criadores do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), uma das primeiras iniciativas brasileiras de cooperativismo. Ele em seguida fundaria o Instituto Green Cross, que investe em educação, mudança social e questões humanitárias, que funcionou como uma espécie de “aceleradora” para as ideias e projetos de Taynaah.

A Moeda surgiu em março de 2017 a partir de um hackathon de 48 horas na sede da ONU, em Nova York, do qual Taynaah participou como anfitrião. Ali surgiu a proposta de usar a tecnologia de blockchain como forma de atrair investimentos para projetos e pessoas que normalmente não têm acesso a crédito e serviços bancários foi elaborada, que saiu vencedora. Uma semana depois, a startup foi criada.

Leia: 17 startups que usam tecnologia para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Como funciona a Moeda?

A Moeda permite que qualquer pessoa do mundo invista nos pequenos produtores com os quais a empresa está conectada. Os investidores fazem isso comprando a criptomoeda da empresa, chamada de MDA.

Comprando uma MDA, os investidores podem escolher precisamente em que projeto querem investir, com o adicional de saberem que são projetos alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Mais do que isso: graças a blockchain, conseguem também ver exatamente como aquele projeto que eles estão apoiando usa o investimento que foi feito. E a pessoa apoiada, por sua vez, sabe exatamente de onde vem o dinheiro que ela agora pode investir em seu projeto.

Alguns dos projetos atualmente cadastrados na Moeda: além de capital, é possível conseguir assessoria para elaborar planos de negócios e planejamento de estratégias e participar de uma rede de apoio

É quase uma plataforma de crédito peer-to-peer, com a diferença de que há uma instituição financeira envolvida no meio. A Moeda é associada ao CRESOL, fundo de crédito solidário também voltado para pequenos produtores. A parceria permite que a Moeda tenha a licença para operar como fornecedor de crédito no país, mas beneficiou também o CRESOL, que teve acesso à tecnologia e ao know how da Moeda.

Para o empreendedor rural que recebe o investimento, trata-se de uma oportunidade que antes não existia. Por meio da Moeda, os projetos conseguem captar recursos e investir em seus negócios, seja por meio de tokens MDA ou moedas físicas – nesse ponto, o CRESOL também ajuda a dar mais liquidez ao token em questão, um ativo digital específico da Moeda.

Para os investidores, trata-se de uma oportunidade bastante interessante: eles investem em uma causa socialmente importante, mas retêm toda a liquidez de um investimento em criptomoedas. Se em algum momento quiserem revender seus tokens, podem fazê-lo de maneira praticamente imediata via blockchain, diferentemente do que acontece com títulos de dívida, por exemplo.

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A Moeda e o blockchain

Um dos primeiros aspectos do blockchain que chamou a atenção de Taynaah foi seu rigor quanto aos dados. “No Brasil, os dados são muito pouco confiáveis”, diz ela. “Por isso, qualquer processo de tomada de decisão que exija esses dados acaba ficando comprometido."

O blockchain, no entanto, ajuda nesse processo. Ele funciona como uma espécie de caderno onde são anotadas transações. Cada transação só é realizada se as informações sobre ela – quem fez o quê para quem e quando – estiverem completas. O rigor no tratamento dos dados é essencial para que a plataforma funcione.

Esse rigor dá suporte ao que Taynaah considera um dos pilares do sistema: a identidade. “A gente usa biometria, reconhecimento facial e de voz para identificar uma pessoa. Isso acaba sendo muito mais confiável do que um documento, que pode ser falsificado e gerar problemas”. O fato de que cada participante precisa se identificar para poder usar o sistema torna quase impossível que ele seja corrompido, ela diz.

E, claro, existe a possibilidade de se circular criptomoedas por esse sistema. As criptomoedas não estão sujeitas às mesmas barreiras de circulação internacional que as demais moedas, e isso lhes dá uma vantagem enorme na hora de trabalhar projetos que envolvam a transferência de dinheiro entre países.

Usando criptomoedas e blockchain, surgiu a ideia de atrair investidores do mundo todo para ajudar a financiar pequenos produtores que, de outra maneira, não teriam acesso a esse investimento. Nesse aspecto, Taynaah conta que conseguiu juntar “meu interesse por tecnologia com a experiência de trabalho do meu pai”.

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Como a Moeda levantou capital

Depois de fundar a Moeda em março, Taynaah deu início ao que ela chama de “um dos períodos mais corridos da minha vida”. Com a ideia formulada, era hora de ir atrás de investidores dispostos a bancá-la.

Trata-se de um desafio extremamente comum entre startups, mas que a Moeda encarou por meio de uma novidade: uma oferta inicial de moedas.

Para tanto, a Moeda elaborou um “white paper”, um documento que, segundo Taynaah, acaba servindo como plano de negócios para empresas prestes a fazer um ICO e explica o que investidores têm a ganhar ao participar dessa oferta inicial.

E os desafios acabaram sendo ainda maiores por conta das particularidades desse mercado. “O pessoal compara ICO com IPO [oferta inicial de ações], mas tem algumas diferenças bem marcadas”, comenta.

Uma delas é o fato de que os investidores do mercado de criptomoedas estão mais presentes na China. “Eu só fui descobrir isso nos últimos dois meses antes da ICO”, relembra. Antes, ela estava buscando financiamento na costa leste dos Estados Unidos, mas depois pode contar com sua co-fundadora, Isa Yu, nascida na China, para fazer o “corpo a corpo” com os investidores chineses.

Mesmo assim, não foi um processo simples. Por conta do fuso-horário, “a gente virava a noite tirando as dúvidas dos investidores de lá”, diz. E o mercado de criptomoedas, diferentemente do mercado de ações, não dorme nunca. Enquanto as bolsas deixam de funcionar durante a noite, a internet está sempre funcionando.

No final, porém, valeu a pena. A oferta inicial de moedas da Moeda rendeu mais de 20 milhões de dólares (mais de 73 milhões de reais na cotação atual, o que é um valor importante, considerando que parte do dinheiro será investido aqui). Dos 841 investidores que apostaram na Moeda durante o ICO, 818 eram chineses.

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O futuro da Moeda

Dar crédito aos pequenos produtores agrícolas é extremamente importante, mas Taynaah acredita que a empresa precisa ir ainda mais longe. Nos próximos meses, ela pretende montar um corpo técnico especializado para auxiliar as pessoas e os projetos que recebem o crédito da Moeda sobre como investir melhor os valores recebidos.

“Não basta você dar o financiamento e pronto”, considera Taynaah. Além de ser um investimento nos pequenos produtores, trata-se também de uma maneira de atrair mais investidores à plataforma. Afinal, o valor da MDA está atrelado ao sucesso das pessoas que recebem o investimento – e quanto mais chances de sucesso elas tiverem, mais atraente a MDA se torna como ativo.

Também está no horizonte a questão da regulamentação do blockchain e das criptomoedas no Brasil, um assunto no qual Taynaah tem uma participação ativa. Em agosto de 2017, em meio ao processo de organização do ICO da Moeda, ela participou como convidada de uma sessão no Congresso Nacional.

Em sua fala em Brasília, ela defendeu a elaboração de uma regulação para criptomoedas que permita explorar todo seu potencial. Atualmente, ICOs são regulados pela mesma lei que regula projetos de financiamento coletivo e por isso estão limitados a arrecadar até R$ 5 milhões.

Considerando que a Moeda, graças à sua estrutura de corporação, arrecadou dezenas de milhões de reais, fica claro que o valor é pequeno. Com uma regulamentação mais flexível sobre o assunto, opina, é possível que mais ideias como a Moeda surjam, trazendo mais serviços a pessoas que ainda não têm acesso a eles.

É um começo notável para qualquer startup. Em uma TED Talk recente, no entanto, Taynaah esclareceu que sua meta é muito maior: ela quer impactar 3 bilhões de pessoas pelo mundo.

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