13 de jul de 2018

O que é fake news e como a tecnologia ajuda a propagá-la (e combatê-la)

Udacity Brasil

O ano de 2016 foi conturbado para os cientistas políticos. Poucos poderiam prever os resultados surpreendentes de grandes eventos que o mundo testemunhou: a eleição de Donald Trump, nos EUA; a saída do Reino Unido da União Europeia; o acordo de paz entre o governo colombiano e as Farc. Em meio a tantas notícias que pareciam mentiras, não demorou muito para que informações realmente falsas começassem a circular: explodia o fenômeno das fake news.

Hoje em dia, o termo caiu no senso comum, e sua definição é justamente um motivo de conflito entre os estudiosos da área. Alguns, como Clare Wardle, do projeto First Draft News, rejeitam a disseminação da alcunha “fake news”. “Não gosto do termo porque agora ele é usado para descrever qualquer coisa”, disse em entrevista à BBC. Pra ela, quanto mais coisas forem chamadas de fake news, menos credibilidade a informação verdadeira vai ter, como se as pessoas começassem a desconfiar de tudo.

Outra linha de especialistas — que inclui os brasileiros Pablo Ortellado e Leonardo Sakamoto — se baseia na proposta dos pesquisadores americanos Hunt Allcott e Matthew Gentzkow. Ivan Paganotti, professor de Jornalismo da Fiam-Faam, simpatiza com essa perspectiva. “As fake news compreendem sites ou notícias comprovadamente falsas, fabricadas para ter uma aparência jornalística, com a intenção de enganar”, explica ele. Isso excluiria da definição, por exemplo, erros da imprensa tradicional, áudios e boatos.

O papel das redes sociais na disseminação das fake news

Para Ivan, é importante entender tudo que o termo tem de específico, evitando que seja confundido com outros fenômenos. Nesse sentido, uma das características que diferenciam as fake news das notícias tradicionais é a origem do fluxo de leitores. “Allcott usa a dependência do fluxo que vem de redes sociais como critério quantitativo para distinguir as fake news. Quarenta porcento dos leitores de sites de fake news vieram por redes sociais, enquanto sites tradicionais têm esse índice em 10%. Os sites de notícias falsas perceberam que podem crescer nas redes sociais”, diz.

E como perceberam. Na Macedônia, jovens (a maioria entre 16 e 24 anos) viram na produção de notícias falsas uma oportunidade para ganhar dinheiro e criaram uma verdadeira indústria dos site de fake news. “Tenho entre 30 a 40 perfis fakes no Facebook e os uso para compartilhar meu conteúdo em vários grupos”, disse um dos estudantes do país em entrevista ao Estadão. A natureza do trabalho é, na verdade, bem simples: copiar artigos reais, trocar algumas informações, acrescentar outras, mudar os títulos — e viralizar o conteúdo resultante.

A repórter Christiane Amanpour conversa com Chris Anderson, criador do TED, sobre como encontrar a verdade no mar de fake news

O aumento do uso das redes sociais como fonte de informação colabora para o fenômeno. “Pesquisas mostram que mais da metade da população dos EUA tem plataformas de redes sociais como fonte jornalística de notícias. O Brasil também se encaminha para esse tipo de tendência. Além disso, cada vez mais parcelas da população que não tinham acesso a essas redes passam a ter”, afirma Ivan.

Ele defende que dois fatores são decisivos na hora de “cair” em uma notícia falsa: o nível de instrução educacional e a familiaridade com o uso de novas tecnologias. “Quem tem um desses aspectos comprometidos ainda pode ser enganado pelo conteúdo das fake news”, diz. “Um professor universitário que não usa redes sociais com frequência pode ser confundido. E cada nova plataforma que surge é um novo conhecimento de uso que precisa ser adquirido.”

Como a tecnologia ajuda na produção das fake news

A aparente credibilidade dos conteúdos falsos e sua capacidade de enganar pessoas podem ganhar força a partir do uso mal intencionado da tecnologia. Além de bots disparadores desse conteúdo, sistemas de inteligência artificial e machine learning, por exemplo, têm sido utilizados para produzir imagens, vídeos e áudios manipulados. Os chamados deepfakes, que utilizam deep learning para criar vídeos falsos, conferem às notícias inventadas uma autenticidade cada vez mais complexa de verificar.

No vídeo acima, é possível ver um deep fake do ex-presidente Barack Obama.

Um dos mecanismos empregados é generative adversarial network (GAN), um algoritmo de IA que realiza machine learning não-supervisionada. Duas redes neurais opostas trabalham em conjunto para fabricar conteúdo de áudio, imagem e vídeo e garantir, com correções de output, a qualidade realista do resultado. Em outra frente, já existem tecnologias capazes de fabricar áudios mais longos a partir de gravações curtas, aposta da startup canadense Lyrebird.

Essas ferramentas, porém, não estão num Olimpo muito distante do alcance do grande público. Existem aplicativos disponíveis para qualquer pessoa baixar, como o FakeApp, que usa um programa de deep learning para trocar rostos em vídeos.

A própria Adobe lançou, em 2016, um protótipo do Project VoCo, que promete a edição de arquivos de voz à semelhança do que faz o Photoshop com imagens. “O que antes só um estúdio bem equipado podia fazer, hoje qualquer um, com algumas horas disponíveis e poucos equipamentos, faz”, avalia Ivan.

Ele explica que as plataformas de manutenção e propagação de conteúdo falso são relativamentes simples de administrar. “É muito fácil fazer um site. Você pode criar um site efêmero, fechá-lo e abrir outro. Um mesmo reprodutor de notícias falsas pode ter mais de um site. Depois, os próprios leitores se tornam propagadores, compartilhando o conteúdo nas redes sociais.”

No entanto, quanto mais sofisticadas forem as tecnologias utilizadas para criar esse conteúdo, mais difícil fica de perceber a manipulação — é aí que mora o perigo potencial dos deepfakes, por exemplo.

A publicação Wired explica fake news

Como combater as fake news

Diante desse cenário, gigantes da internet entraram na briga, tentando usar a tecnologia como aliada no combate às fake news. Google e Facebook fecharam o cerco, bloqueando sites e perfis duvidosos. A rede de Mark Zuckerberg também reformulou o algoritmo, privilegiando postagens de perfis pessoais em vez de sites de notícia — o que gerou algumas críticas —, e criou parcerias com agências de checagem de fatos no mundo todo.

Algumas análises apontam que sistemas já utilizados há algum tempo, como detectores de spam, poderiam identificar e avaliar a veracidade dos conteúdos publicados por sites de notícias. Outras técnicas, mais sofisticadas, seriam capazes de detectar pistas de autenticidade em vídeos e áudios, para determinar se foram gerados por computador. Entretanto, todos esses mecanismos evoluem na mesma medida daqueles utilizados para criar conteúdo falso. A disputa é acirrada.

Para Ivan, esse combate mano a mano é pouco efetivo, já que o volume de fake news é muito grande e a produção, dinâmica. “Acompanhar isso se torna uma tarefa quase impossível. O tempo que se leva para produzir uma notícia falsa é muito mais curto do que o necessário para fazer a checagem. Uma pesquisa do MIT verificou que a propagação das fake news é muito maior do que a da informação corrigida”, diz.

Por isso, ele aposta em medidas a médio e longo prazo. “Acredito que é mais importante usar a tecnologia para a formação do público, para mostrar que é preciso ter novos conhecimentos de letramento midiático.” Isso significa educar a população sobre o funcionamento das mídias — sobretudo em suas novas plataformas —, seus diferentes potenciais e efeitos. (O Google, por exemplo, já criou o projeto "Be Internet Awesome", voltado principalmente para o público infantil.) “São conhecimentos necessários para viver no século 21, que devem ser divulgados para que as pessoas possam aprender a lidar com esses novos saberes”, defende Ivan.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.