5 de set de 2018

O que é lean startup e como aplicar esse conceito?

Udacity Brasil

As mudanças tecnológicas dos últimos anos geraram um mercado que exige que as empresas se adaptem rapidamente. E essa rapidez não é exatamente a característica principal de grandes corporações: com estruturas organizacionais imensas e múltiplos níveis de hierarquia que engessam o dia a dia, há “dinossauros” que muitas vezes fazem o oposto do que o mercado demanda.

Nesse cenário, é preciso repensar a maneira como empresas se organizam. E é com esse objetivo que surge em 2011 o bestseller A Startup Enxuta, do empreendedor Eric Ries. A ideia do livro é justamente imaginar uma maneira de gestão “enxuta” (como o termo “lean” ficou traduzido por aqui) que seja mais adequada ao contexto atual.

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O que é lean startup?

Como o próprio nome indica, “lean startup” se refere a uma estrutura organizacional enxuta, sem excessos. A ideia central é que uma estrutura desse tipo não apenas gera menos custos fixos como também se adapta mais rapidamente a mudanças. E diante do cenário desafiador do mercado atual, trata-se, naturalmente, de uma proposta interessante.

Maurício Zanetti, o CEO da Igloo Networks, diz aplicar o conceito de lean startup em todas as iniciativas nas quais trabalha, sejam elas startups ou não. A Igloo Networks é um hub de negócios que liga startups a “clientes-anjo” (empresas que podem se beneficiar dos serviços que essas startups oferecem) e oferece mentoria e treinamento para que elas aproveitem melhor a oportunidade inicial.

Segundo Zanetti, o objetivo da lean startup é simples: “Ter a estrutura mais enxuta possível, porque assim você se adapta mais rapidamente a qualquer tipo de demanda e gasta o mínimo de recursos”. Isso envolve automatizar o máximo possível de processos e ter o mínimo possível de pessoas, mesmo que isso exija a terceirização de tarefas.

Ele cita como exemplo dessa mentalidade uma startup de meios de pagamento com a qual a Igloo Networks trabalha. A empresa já atende mais de 300 clientes, mas tem apenas dois funcionários fixos. Qualquer decisão estratégica, portanto, pode ser resolvida basicamente com um telefonema.

Eric Ries apresenta a lean startup, ou startup enxuta, em palestra no Google

O produto mínimo viável (MVP)

De acordo com o Sebrae, parte importante do conceito da “lean startup” é a definição de um produto mínimo viável. Mais conhecido pela sigla MVP em inglês, ele representa a menor entrega possível que tenha ainda uma proposição de valor suficientemente interessante para que seu principal cliente a adote. (Saiba mais sobre MVP aqui.)

A ideia pode parecer confusa a princípio, mas não é: o MVP é apenas a versão mais simples possível que você pode criar do seu produto final. A parte de “produto” é suficientemente clara, mas entre as partes de “mínimo” e “viável” às vezes acaba surgindo um pequeno conflito.

O MVP não é uma versão “simplificada” ou “sucateada” do produto final, feita para poder ser entregue mais rapidamente. É uma versão completa do produto em termos de funcionalidade, mas conceituada com agilidade e economia de recursos em mente. A diferença entre essas duas coisas é a diferença entre um produto “magro” e sem graça, por um lado, e um produto “enxuto”, sem excessos, do outro.

Essa mesma distinção entre “magro” e “enxuto” pode se aplicar à organização da empresa. O conceito de “lean”, como o Sebrae aponta, não deve ser confundido com “barato”. A ideia é usar o mínimo possível de capital no projeto da startup, mas o suficiente para que os negócios fluam bem.

Construir, medir, aprender

Chegar a um MVP é um dos primeiros passos que a startup enxuta deve dar. Em seguida, ela entra em um ciclo que Ries chama de “Build, Measure and Learn”, ou construir, medir e aprender. O MVP é construído, testado e, com base nos resultados dos testes, alterado para se adequar melhor aos seus propósitos e às demandas dos clientes.

De acordo com o site que Ries criou para o livro, o processo de mensuração é especialmente importante. Ele precisa levar em consideração os dados certos – medir apenas a receita ou o número de clientes nem sempre são a melhor opção. E a escolha de quais dados devem ser usados pode causar problemas, como veremos mais adiante.

Ao longo desse ciclo, a startup também precisa estar atenta e aprender o máximo possível com qualquer erro que seu produto venha a demonstrar. Uma técnica que auxilia nisso é o que Ries chama de “os cinco porquês”, que envolve justamente perguntar "por que" cinco vezes seguidas.

Segundo um texto seu para a Harvard Business Review, esse exercício ajuda a detectar as causas humanas por trás de falhas supostamente técnicas.

Por exemplo: uma nova função para um app fez com que outros recursos deixassem de funcionar para alguns usuários. Por que isso aconteceu? Porque um servidor quebrou. Por que ele quebrou? Porque um subsistema estranho foi usado de maneira errada. Por que foi usado de maneira errada? Porque o engenheiro responsável não sabia como usá-lo. Por que ele não sabia? Porque nunca recebeu treinamento. Por que nunca recebeu? Porque o supervisor dele dizia estar ocupado demais para treiná-lo.

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Dessa maneira, em 5 perguntas chega-se à causa humana de um erro. Segundo Ries, solucionar esse problema não envolve mexer apenas em sua raiz (o supervisor), mas investir para melhorar todos níveis em que a falha aconteceu. Portanto: consertar o servidor, mudar o subsistema, treinar o engenheiro e conversar com o supervisor.

Quando esse processo de mensuração é bem feito, ele deixa claro se a startup está indo na direção certa. Se esse não for o caso, isso é um indicador que pode estar na hora de fazer um “pivô”. Nas palavras de Ries, trata-se de uma “corajosa mudança de direção’’ para “testar uma nova hipótese fundamental sobre o produto, estratégia e motor de crescimento”. Ou seja: dar uma guinada na startup.

Longe de ser um indicador de falha, o pivô é uma oportunidade de aprendizado. Ao entender os motivos pelos quais a empresa não está funcionando da maneira que se esperava, seus membros têm a oportunidade de fazer algo novo e melhor.

Você já ouviu falar em sites e produtos como o Slack, Flickr e Twitch? Segundo o Openview Labs, esses três serviços surgiram a partir de “pivôs” de startups que não estavam dando certo.

Os desafios de implementar o conceito de lean startup

Um dos principais diferenciais das lean startups é a sua capacidade de se adaptar rapidamente a mudanças. Mas essa adaptação não é algo que acontece de maneira automática: é preciso que os envolvidos na startup definam com precisão quais são os indicadores de performance mais importantes para ter em mente e os monitorem constantemente.

Isso, como Zanetti aponta, é um pouco mais complicado do que parece. “Esses indicadores precisam ser definidos entre os investidores e a startup, porque nem sempre é só olhar o lucro ou receita. Dependendo do ramo da empresa, pode ter outro indicador que seja mais importante para o longo prazo”, argumenta.

Por exemplo: se uma empresa que produz embalagens olhar apenas para seu lucro, pode acabar não percebendo que está desperdiçando cada vez mais material. E esse desperdício, ao longo do tempo, pode acabar gerando um custo totalmente incompatível com o conceito de uma “lean startup”.

E como os indicadores importantes precisam ser definidos entre a startup e seus investidores, isso pode gerar frustração, já que as duas partes não chegam a um consenso quanto a quais números são mais importantes para olhar.

Zanetti diz já ter presenciado situações desse tipo diversas vezes, especialmente quando a startup tem como principal apoiador um banco ou empresa de um segmento diferente do seu, que insiste muito na monitoração de lucro, receita e retorno sobre investimento.

Nesse sentido, é importante ter bastante clareza em relação à proposta de valor, o objetivo da empresa e seu modelo de negócios.

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O perfil de quem trabalha em uma lean startup

Trabalhar em uma empresa que siga a metodologia lean thinking, segundo Zanetti, exige um perfil profissional que é mais compatível com pessoas que entraram mais recentemente no mercado. “Os profissionais mais jovens têm uma mentalidade mais self-service: eles gostam de resolver as coisas por si mesmos. Eles têm mais claro esse ciclo de tentativa, erro e aprendizado."

Por outro lado, profissionais com mais tempo de mercado às vezes têm um pouco de dificuldade de se adaptar ao trabalho dessa maneira. Isso porque, graças à estrutura enxuta, todo mundo precisa fazer um pouco de tudo – o que pode ir de encontro às expectativas que esses profissionais têm no ambiente de trabalho.

Trata-se de uma diferença, ao fim e ao cabo, de mentalidade geral nos negócios. E essa mudança de mindset é, segundo Zanetti, um dos principais desafios que as lean startups enfrentam para entrar no mercado – não só para encontrar os profissionais certos, mas também por conta de seus potenciais clientes, que podem vê-las como imaturas ou menos competentes.

“É difícil grandes corporações comprarem serviços de startups porque elas acham que, como são grandes, têm equipes internas que fazem a mesma coisa e não precisam disso. Ou então elas acham que, porque são grandes, precisam comprar de outra grande corporação, e acabam pagando caro pelo mesmo produto que uma startup podia oferecer”, considera Zanetti.

Mesmo assim, ele acredita que o conceito de lean startup é algo que veio para ficar – e ir além das startups do título. Conforme grandes corporações forem se dando conta de que empresas muito pequenas estão conseguindo resolver problemas complexos a um custo (bem) menor, a ideia apresentada por Ries pode se tornar uma das principais metodologias de negócios do mundo.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.