14 de ago de 2018

Realidade virtual na medicina: como VR está formando cirurgiões e transformando a saúde

Udacity Brasil

“Realidade virtual” é uma expressão que pode trazer à mente games, entretenimento e filmes de ficção científica. Mas a tecnologia que nos permite navegar por ambientes tridimensionais criados virtualmente já está entre nós, e suas aplicações vão muito além de passatempos.

Um dos grandes potenciais da realidade virtual está na educação. Através do estímulo visual e de simulações cada vez mais realistas, será possível aprender uma maneira totalmente diferente – e já há estudantes de medicina testando esse novo caminho.

Preparar futuros cirurgiões para que realizem procedimentos cirúrgicos não é uma tarefa simples, como se pode imaginar. Além de todos os conhecimentos teóricos que o aluno precisa ter para realizar uma cirurgia bem-sucedida, há ainda uma barreira de experiência prática que precisa ser superada para que o procedimento tenha sucesso.

Isso porque operar alguém exige também destreza manual e familiaridade com equipamentos, habilidades obtidas principalmente na prática. Para quem nunca operou, os recursos mais comuns são bonecos extremamente realistas (e caros) que imitam o corpo humano.

Hoje, no entanto, desponta uma possibilidade melhor – e potencialmente bem mais barata.

Na prática: realidade virtual na medicina

Uma das empresas que vem investindo nessa área é a Osso VR. A startup cria representações em realidade virtual de operações complexas, como cirurgias ortopédicas e, usando equipamentos de realidade virtual, os médicos em treinamento navegam por essas representações.

Isso envolve fazer todas as operações que seriam necessárias na versão real do procedimento em um ambiente virtual, como a manipulação dos instrumentos cirúrgicos com a destreza exigida pelo mundo físico:

De acordo com a Osso VR, esse método de treinamento é duas vezes mais eficiente. E segundo a publicação MIT Tech Review, isso reduz o tempo necessário para formar cirurgiões ortopédicos, algo que normalmente exige 14 anos de estudo.

Os resultados da Osso VR chamaram suficiente atenção para serem usados em oito programas de residência médica nos Estados Unidos, incluindo os de universidades como Columbia e Harvard. Isso deve agilizar o processo de formação de cirurgiões, facilitar a avaliação de suas habilidades e trazer mais segurança às operações.

Não se trata apenas de uma medida útil, mas também de uma mudança essencial na forma como os médicos são treinados. Isso porque, ainda segundo o MIT Tech Review, o uso de robôs em salas de operação tem diminuído a presença de estudantes de medicina nesses ambientes. Nesse cenário, a realidade virtual é uma ótima substituta.

A Osso VR, aliás, não é a única que está visando esse mercado. Outra é a Immersive Touch, que também produz versões virtuais de procedimentos cirúrgicos que podem ser usadas para treinar médicos.

Além disso, a empresa também cria soluções em realidade virtual para a visualização de exames: cirurgiões e médicos responsáveis por diagnósticos podem usar as ferramentas para visualizar os resultados de exames em 3D. O vídeo abaixo mostra como seria a visualização de um tumor cerebral em realidade virtual:

Trata-se de uma aplicação muito útil da tecnologia. Afinal, a maneira como atualmente visualizamos exames imagéticos, como raios-X e tomografias, são chapas bidimensionais. São representações em duas dimensões de uma realidade tridimensional – o nosso corpo – e torná-las mais próximas da realidade ajuda médicos a compreenderem resultados de maneira mais rápida e completa.

Para profissionais da medicina diagnóstica, por exemplo, significa entender melhor os problemas dos pacientes; para cirurgiões, mais confiança e agilidade na hora de preparar uma cirurgia.

Leia: Entenda quem lidera o campo de realidade virtual e o que buscam em profissionais

Medicina e aplicações de realidade virtual no Brasil

No Brasil, já há empresas de olho nas oportunidades da realidade virtual na medicina. A MedRoom, por exemplo, começou em 2015 em um fim de semana de criação de startups do Núcleo de Empreendedorismo da Universidade de São Paulo (USP). Seu fundador e atual CEO, Sandro Nhaia, é um designer que já tinha vinte anos de experiência, incluindo quatro anos trabalhando no projeto “Homem Virtual” da Faculdade de Medicina da USP.

De certa forma, a startup começou ainda antes, em 2013, quando Sandro testou a primeira versão para desenvolvedores do equipamento de realidade virtual Oculus Rift. “Eu achei que aquilo ia mudar o mundo”, conta.

Na época, o equipamento ainda tinha uma série de problemas e causava muito enjôo. Quando a segunda versão foi lançada, um ano depois, Sandro se animou a realizar um projeto com ela.

Em 2015, apresentou a um professor da Faculdade de Medicina da USP a ideia de usar o equipamento como instrumento de educação para médicos. Com a aprovação, buscou um sócio e fundou a empresa.

Em 2017, eles receberam seu primeiro aporte financeiro, do fundo Health Plus do Rio Grande do Sul em conjunto com o Hospital Albert Einstein. Isso permitiu expandir sua equipe de três para 12 pessoas. Atualmente, há 28, incluindo desenvolvedores de jogos e artistas 3D.

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Desafios da realidade virtual na medicina

Segundo Sandro, a ideia inicial da MedRoom era desenvolver versões em realidade virtual de diversos procedimentos cirúrgicos. Com o tempo, no entanto, viram que o processo de validação de cada um desses procedimentos por médicos seria excessivamente demorado e custoso. Mudaram de estratégia.

No modelo anterior, os estudantes poderiam consultar uma “biblioteca de morfologia” quando tinham dúvidas sobre os procedimentos. Essa biblioteca era basicamente uma galeria de modelos em realidade virtual de diversos órgãos, sistemas e tecidos do corpo humano.

A equipe percebeu que essa biblioteca já era, por si só, um produto interessante: além de ter muito valor para os estudantes, era mais fácil de validar do que os procedimentos em si. Por fim, se tornou o principal produto da empresa. Atualmente, a MedRoom tem mais de 4 mil modelos desse tipo, divididos entre quatro grandes módulos do corpo humano: tórax, abdome, membros e cabeça e pescoço.

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Detalhe de modelo criado pela MedRoom / Foto: Divulgação

O corpo humano é extremamente complexo e intrincado, e a medicina é especialmente protetora dos conhecimentos que adquiriu ao longo de milhares de anos. Isso significa, na prática, que é fundamental validar as informações desse tipo de aplicações com profissionais – o que não é fácil.

Sem essa proximidade, os modelos da MedRoom correriam o risco de “ensinar errado” – algo evidentemente muito perigoso. “É uma cadeia: se o osso sai errado, os músculos saem errado, os ligamentos saem errados e os vasos [sanguíneos] saem errado também”, explica Sandro.

“Se você olha para um coração de transplante, ele é de um jeito. Mas o coração, junto com as outras estruturas, se acomoda de uma maneira diferente no corpo”, continua. Por isso, o diálogo entre a empresa e os médicos é essencial para que os modelos em realidade virtual sejam tão confiáveis quanto possível.

Criar esse esquema de trabalho foi um dos maiores desafios que a empresa enfrenta, visto que cada um dos milhares de modelos criados precisa ser validado por médicos. Seis estudantes de medicina do Albert Einstein ajudam os criadores da MedRoom, mas os modelos finais ainda precisam passar pela aprovação de especialistas do hospital para serem considerados válidos.

Segundo o CEO, a startup está conseguindo avançar nessa questão. Depois de criar um “pipeline” de aprovação mais eficiente, reduziram bastante o tempo de processo: enquanto o primeiro módulo (tórax) levou três meses para ser validado, os outros três foram todos aprovados em dois meses e meio.

Outro grande desafio, segundo Sandro, é encontrar profissionais capacitados para trabalhar na MedRoom. Realidade virtual é uma área relativamente nova, e por isso há ainda pouca gente com esse conhecimento. (A Udacity oferece um curso para tanto: o Nanodegree Desenvolvedor de Realidade Virtual.)

Como esses profissionais são bastante cobiçados, e muitas vezes acabam indo trabalhar em empresas muito maiores e globais. “A gente compete com grandes estúdios lá fora. O cara que pode trabalhar na MedRoom poderia estar trabalhando num grande estúdio de games no exterior também”, conta Sandro.

Oportunidades da realidade virtual na medicina

Os desafios do dia a dia, no entanto, perdem para o otimismo do empreendedor, alimentado em parte pelo feedback positivo de profissionais de saúde. “[A realidade virtual] ajuda muito na visualização espacial. Quando o aluno tem uma aula teórica e depois consegue ver aquilo que ele aprendeu em um corpo humano na frente dele, faz toda a diferença”, resume.

A empresa está realizando um estudo com os alunos de medicina do Einstein para avaliar mais rigorosamente o ganho que suas soluções trazem: pretendem comparar o aprendizado de dois grupos de estudantes (um que utilizará os recursos da MedRoom e o outro não) em breve.

O fato da realidade virtual ser um meio tão novo também é, para Sandro, uma oportunidade grande. “A realidade virtual ainda não tem nada pré-estabelecido, então a gente pode experimentar bastante.”

Nesse sentido, Sandro destaca jogos, uma das aplicações mais populares de VR atualmente. “Os estudantes de medicina têm que aprender muita coisa em muito pouco tempo, e os jogos têm recursos de storytelling e engajamento que podem ajudar bastante”, explica.

O aspecto mais legal do trabalho, no entanto, para ele é outro: pensar que é possível levar uma solução de custo relativamente baixo para pessoas que poderiam não ter acesso a esse tipo de treinamento.

Ao utilizar realidade virtual, você pode se inserir na garagem de Steve Jobs, numa montanha-russa, numa obra de arte e dentro do corpo humano. Trata-se da possibilidade de colocar pessoas em lugares e situações em que elas nunca estariam de outra forma. Para Sandro, essa é a principal inspiração.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.