14 de mai de 2018

SenseTime: conheça a startup de inteligência artificial mais valiosa do mundo

Udacity Brasil

Era uma vez uma startup chinesa avaliada em 4,5 bilhões de dólares. Soa como o início de uma boa ficção, mas é verdade. A SenseTime, fundada em 2014 por um grupo de onze acadêmicos chineses, é a startup de inteligência artificial (AI) mais valiosa do mundo.

Em sua mais recente rodada de investimentos, a empresa diz ter arrecadado US$ 600 milhões junto à gigante Alibaba e outros grandes investidores.

Após anos de pesquisas em inteligência artificial, o co-fundador e CEO Li Xu, que tem 35 anos, teve a ideia para o negócio junto a seus colegas acadêmicos da Universidade Chinesa de Hong Kong.

"Como acadêmicos, tínhamos conhecimento da poderosa ferramenta que estávamos desenvolvendo", disse Xu em entrevista ao jornal South China Morning Post. "Quando combinado com grandes volumes de dados, nosso algoritmo de deep learning pode superar o desempenho humano em uma série de tarefas, como no reconhecimento facial", explica.

O deep learning, um ramo do machine learning, faz com que algoritmos ensinem os computadores a aprender por meio de exemplos e executar tarefas com base na classificação de dados diversos, sejam eles imagens, sons ou textos.

De acordo com a SenseTime, os investimentos recebidos recentemente irão financiar o desenvolvimento de tecnologias e serviços relacionados a carros autônomos e realidade aumentada, além de cobrir os custos com talentos altamente qualificados em AI.

Desde 2015, segundo o _MIT Technology Review_, a SenseTime e seus PhDs em inteligência artificial já publicaram mais artigos nas principais conferências globais de AI do que as gigantes empresas americanas como o Facebook e o Google.

A companhia chinesa começou a ser lucrativa em 2017 e agora pretende aumentar sua força de trabalho em 33%, chegando a 2 mil funcionários até o final de 2018.

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O que torna a SenseTime tão valiosa?

A SenseTime vem atraindo atenção e investimentos por uma série de motivos – e o maior deles é o tipo de serviço oferecido.

A empresa, especializada em sistemas que analisam faces e imagens, já tem softwares sendo usados por fabricantes chinesas de smartphones como Xiaomi, Vivo e Oppo para organizar álbuns de fotos e desbloquear telefones digitalizando rostos.

Mas o grande diferencial da companhia é a aplicação desse tipo de tecnologia em grande escala e com a maior precisão já atingida até hoje. Imagine câmeras de vigilância em ruas, praças, shoppings, supermercados e outros tipos de estabelecimentos gravando a movimentação continuamente e identificando todos os rostos que passam.

É parecido com o que o Facebook faz com as fotos em que seus amigos aparecem – só que em tempo real.

Agora imagine que todas essas câmeras também são capazes de mapear seus movimentos, comportamentos e ações, armazenando tudo isso na forma de dados que podem ser acessados por quem controla essas câmeras, como os governos ou proprietários de estabelecimentos comerciais.

Deu para imaginar? Atenção: não se trata de um capítulo do icônico livro 1984, de George Orwell, que previu uma sociedade completamente vigiada – estamos falando de fatos reais. A distopia criada pelo autor já não parece tão distante assim.

O sistema da SenseTime já está em funcionamento na China. E apesar da maioria dos cidadãos nunca ter ouvido falar na empresa, ela já observa parte deles todos os dias, silenciosamente.

A Suning, por exemplo, uma das maiores varejistas de eletrônicos da China instalou o sistema em suas lojas tanto por questões de segurança como para compreender o comportamento dos consumidores.

As câmeras da SenseTime espalhadas pelas cidades também têm ajudado o trabalho de policiais de diversas maneiras – desde a identificação de simples acidentes de trânsito até a vigilância de ambientes muito lotados, como os metrôs e estações de trens.

Para o CEO Li Xu, é a forte experiência da SenseTime com tecnologia de reconhecimento facial que levou os grandes investidores a apostarem no trabalho. Hoje, a startup soma 20 investidores de peso.

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Monitoramento e vigilância: qual o limite?

Além de carros autônomos e realidade aumentada, os próximos passos da SenseTime incluem o desenvolvimento de um serviço de monitoramento chamado Viper.

O objetivo desse sistema é permitir que o controlador das imagens possa analisar os dados de milhares de feeds de câmera ao vivo. Milhares.

A startup acredita que a plataforma se tornará uma inestimável ferramenta de vigilância em massa, algo muito apreciado pelo governo chinês.

Mas até que ponto esse tipo de monitoramento é saudável ou adequado? Apesar da SenseTime já estar trabalhando há muitos anos na área – boa parte em silêncio – o assunto tem começado a despertar discussões sobre os limites da tecnologia.

Uma das críticas à startup diz respeito ao fato de que muitos cidadãos sequer sabem que há câmeras e, quando sabem, não imaginam que essas máquinas estão reconhecendo seus rostos e dando tantas informações aos controladores do sistema.

O CEO Li Xu se defende desse tipo de crítica afirmando apenas que "o sistema não afetará [questões de] privacidade porque apenas pessoas autorizadas podem acessá-lo".

A atual interface de monitoramento em tempo real da SenteTime na prática

Segundo a _Bloomberg_, outro tipo de crítica vem de defensores das liberdades civis: eles afirmam que o serviço da SenseTime tem sido usado para rastrear ativistas e oprimir minorias políticas em regiões como o oeste de Xinjiang, na China, por exemplo.

Estima-se que os principais clientes da empresa sejam órgãos governamentais. O governo chinês, além de utilizar largamente os serviços da SenseTime, tem apoiado a empresa ao fornecer acesso a um gigantesco banco de dados que contém mais de 2 bilhões de imagens diferentes – o que ajuda a startup a "treinar" seus algoritmos.

Para se ter ideia da magnitude, os maiores bancos de imagens comerciais e disponíveis ao público costumam ter, no máximo, algumas dezenas de milhões de imagens.

"O intenso monitoramento por câmeras não é recente e já acontece há algum tempo, especialmente em aeroportos pelo mundo. A novidade é o nível de detalhamento das imagens", afirma João Luís Garcia Rosa, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP de São Carlos.

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"Quando um governo ou empresa registra essas imagens, quanto está sendo invadido? A discussão sobre ética e sobre até onde se pode chegar é permanente", reflete o professor. "Mas o fato é que, independentemente da vontade das pessoas, a tecnologia está evoluindo e as coisas estão acontecendo".

Garcia Rosa acredita que a SenseTime está tendo muito retorno porque, de fato, há grande interesse de empresas e governos nesse tipo de vigilância, o que contribui por uma alta demanda por esse tipo de tecnologia e equipamento.

"Hoje há câmeras por todos os lados e muitas vezes a pessoa nem sabe que está sendo monitorada. Esse tipo de vigilância parece ser uma tendência e vai aumentar", diz o professor.

Para ele, os avanços tecnológicos são irreversíveis. O que precisa ser feito é um debate público sobre o assunto concomitantemente ao desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Tais polêmicas ao redor do uso da tecnologia não parecem abalar a valuation bilionária da SenseTime – pelo menos por enquanto.

Mas se suas aspirações internacionais continuarem – o que é provável –, são grandes as chances de encontrar obstáculos pelo caminho em outros países, como novas leis sobre privacidade, códigos de ética entre profissionais e pressões sociais.

No meio tempo, seus algoritmos seguem treinando sem parar.

A quantas anda a inteligência artificial no Brasil?

No que diz respeito ao reconhecimento facial, a SenseTime segue imbatível com seu sistema revolucionário e as concorrentes estão ainda muito distantes em todo o mundo.

Mas quando o assunto é inteligência artificial, o campo é muito amplo e pode-se dizer que o desenvolvimento de diversos aspectos da tecnologia está acelerado em muitos países, inclusive no Brasil.

"Apesar de muita gente ser pessimista, acredito que o Brasil está bem na pesquisa e aplicação da AI. Ainda nos mantemos atrás dos EUA e de alguns países da Europa, mas eu diria que estamos avançando bem", opina o professor Garcia Rosa.

"Há uma boa evolução em pesquisas, principalmente nas grandes universidades. A área da AI é muito ampla e oferece diferentes campos de atuação. Muitas pessoas têm trabalhado nisso", finaliza.

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Sobre o autor
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A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.