22 de ago de 2018

7 startups de saúde que estão inovando no Brasil

Udacity Brasil

O Brasil tem milhões de habitantes. Mais precisamente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são mais de 207 milhões. Agora imagine que cerca de 70% da população não possui plano de saúde particular, seja individual ou empresarial, de acordo com uma pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas. Onde esses brasileiros buscam atendimento, então?

Na lacuna que existe entre esperar meses para conseguir uma consulta pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e ter que arcar com despesas altas quando atendimento médico ou hospitalar é necessário, algumas companhias viram uma oportunidade de negócio. Esse movimento parece querer realizar o sonho de colocar a tecnologia a serviço da população – sem descuidar da viabilidade econômica.

Abaixo, conheça 7 startups de saúde brasileiras que atuam em áreas diversas, de gestão médica a treinamentos via realidade virtual, e entenda melhor esse mercado.

Assista ao webinar: Transformando a sua ideia em startup

Vida Class

Fundada em 2014, a Vida Class é uma startup que promove acesso a serviços médicos, dentistas, exames de imagens e laboratoriais e consultas com valores acessíveis, sem pagamento de mensalidade ou taxa de adesão. Ou seja, você só paga quando faz um exame ou passa por uma consulta.

Também chamadas de healthtechs, as startups de saúde começaram a aparecer entre 2013 e 2014. O boom, segundo o CEO da Vida Class, Vitor Moura, teve seu ápice há dois anos, mas ainda não terminou. "Há espaço para muito crescimento", analisa.

Moura afirma que a entrada das startups na saúde trouxe benefícios para todos os lados. Para o mercado, o aumento da competição, novo equilíbrio de forças entre cliente e provedor de serviços. Para os pacientes, preços mais baixos, meios de pagamento mais acessíveis e fluidez na busca de diagnósticos e tratamentos.

Ele cita três transformações promovidas pelas startups no setor:

  • Redução dos custos gerais dos serviços de saúde
  • Inclusão de populações mais vulneráveis
  • A longo prazo, redução significativa dos custos que hoje estão a cargo do governo

E há oportunidade para muito mais. Segundo o CEO, as startups podem resolver questões como a antecipação de diagnósticos e o acesso a serviços e produtos de qualidade por preços acessíveis, mesmo esbarrando em burocracias fiscais e tributárias e na dificuldade de captação de recursos em um ambiente político e econômico instável.

Ele também aposta que problemas específicos dessa novidade vão se resolver, como a criação de uma infraestrutura jurídica. Para Moura, é apenas “questão de tempo para que se trabalhe num marco regulatório justo, que não elimine o empreendedorismo mas venha a estabelecer regras mínimas relacionadas às questões éticas e aos riscos inerentes a cada modelo”.

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Zenklub

Pessoas e especialistas de bem-estar emocional conectados em sessões por videoconsulta. Basicamente, terapia via Skype ou outra ferramenta do tipo – é só escolher com quem você quer falar. O serviço está disponível em uma plataforma digital brasileira desde 2016: a Zenklub.

"Somos um grupo de pessoas que acredita que todos os dias acordamos para ser alguém melhor, que reconhece que cuidar da saúde física e intelectual é muito importante – mas que seremos capazes de atingir um propósito maior e pleno quando associamos essas práticas aos cuidados com o nosso bem-estar emocional", explica o CEO da Zenklub, Rui Brandão.

Atenta às regras do meio, a Zenklub segue as resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CPF) para os especialistas com atendimento presencial e online. E o outro lado está de olho na inovação: Brandão destaca que foi em maio deste ano que o CFP publicou uma resolução para atribuir à prática online o mesmo nível de eficácia e sucesso da presencial.

Assim como Moura, ele considera que o espaço para healthtechs no país é enorme e promissor: só a Zenklub já realizou mais de 15 mil consultas.

"O principal benefício está na mão dos clientes, que a partir dessas inovações conseguirão ter um empoderamento maior e potencial de decisão mais aguçado quando o assunto for saúde", explica. "Com acesso aos seus dados e histórico médico e transparência nas condições e tratamentos, tem-se uma ferramenta que lhe permite ser mais proativo e não apenas reativos a doenças. É a pessoa no papel de cliente e não apenas de paciente."

Brandão cita investimentos crescentes nos últimos cinco anos: em 2012, 1,5 bilhão de dólares, e em 2017, um crescimento de 200%, chegando a US$ 4,5 bilhões. Os dados são do PitchBook.

Isso não significa que basta abrir as portas de uma healthtech para ter sucesso. "Para o mercado ganhar relevância e representatividade, é necessário que as startups estabeleçam alianças com grandes empresas", fala, destacando que isso torna possível validar ideias e escalar soluções. "E essa não é uma tarefa fácil, pois a mentalidade e a rapidez na operação entre essas empresas são muito diferentes."

iClinic

Marcar uma consulta online talvez não seja novidade para você, mas em 2011, quando a iClinic foi fundada, certamente era. Com o objetivo de "descomplicar a saúde", a startup investiu na criação de um software como serviço (SaaS) para auxiliar na gestão de clínicas e consultórios. O software oferece prontuário eletrônico, agenda online e gestão financeira, entre outras coisas.

"O setor de saúde é primordial para o funcionamento de uma sociedade e todo mundo precisa de cuidados médicos. Assim, envolve muitas pessoas e um grande fluxo de capital. E ainda por cima existem diversas especialidades e diversos prestadores de serviços, cada qual com necessidades distintas. Ou seja, tem muita oportunidade", afirma o head de marketing Thiago Farina.

O maior desafio para a iClinic é fazer com que o médico que nunca ouviu falar de sua marca entenda que sua empresa é diferente das experiências ruins que ele já teve. Farina diz que muitas vezes os profissionais da saúde percebem as dificuldades, mas não conseguem entender que elas estão ligadas à falta de gestão, que faz com que milhares de clínicas fechem as portas.

"Historicamente, médicos foram muito assediados por empresas com serviços ruins e focados apenas no lucro, o que criou uma associação ruim entre tecnologia e má qualidade. Também há um pensamento de que um vendedor de empresas que têm médicos como público-alvo quer vender um serviço para o profissional a qualquer custo", explica.

Farina destaca que, apesar de muito se falar em healthtechs, o que há hoje são as sickcares, algo como "cuidadoras de doentes", visto que o tratamento é feito apenas quando há doença.

"As startups que conseguirem desenvolver soluções escaláveis que ajudem na disseminação de saúde e na prevenção de doenças provavelmente surfarão uma onda de muito sucesso", afirma.

Na avaliação do executivo, a mina de ouro pode estar em big data e inteligência artificial. "Muita informação se perde durante a vida de um paciente. Exames, consultas, diagnósticos, medicamentos, tratamentos e procedimentos, entre diversos outros, ficam segregados em cada elo da cadeia de saúde: algumas informações ficam com o médico, outras com o hospital, outras com o plano de saúde, outras com o paciente e por aí vai."

Reunir tudo num só lugar e procurar por padrões e previsões através da tecnologia pode facilitar – e possivelmente revolucionar – os cuidados com a saúde.

As startups provocaram mudanças ainda na relação médico-paciente, que se tornou mais cômoda e precisa, e nas finanças dos provedores de saúde. "Profissionais e instituições que têm usado esse tipo de tecnologia têm conseguido prosperar muito mais em comparação com colegas que ainda não se adaptaram.”

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n2b

Nutrição de qualidade na palma da mão. O principal objetivo da n2b – ajudar as pessoas a se alimentarem bem e de forma equilibrada – ganhou forma no aplicativo criado para acompanhar o usuário em toda a jornada de escolhas alimentares. A missão da startup é democratizar o acesso à nutrição de qualidade e compartilhar essa responsabilidade com empresas, define a cofundadora e COO Luísa Cusnir.

"O setor da saúde traz um propósito enorme e ao mesmo tempo um desafio muito interessante. Na nossa área, por exemplo, é muito comum encontrar soluções focadas exclusivamente em estética. É raro encontrar soluções realmente focadas em saúde e que também tragam preocupações de usabilidade, design, engajamento. O que estamos trazendo é uma releitura da nutrição."

Ela se lembra que a maioria das healthtechs da primeira leva, que surgiram há cerca de cinco anos, focava em perda de peso e estética. A oportunidade real de negócio, no entanto, está em outro lugar.

A COO da n2b aponta o colapso em que está entrando mercado de saúde tradicional como ponto de atenção para a saúde pública: a inflação de custos médicos-hospitalares atingiu 19% em 2017 e o reajuste dos planos de saúde está em 25% ao ano.

"O acesso está cada vez mais difícil, o sistema como um todo está desregulado e o foco até o momento tem sido na doença e não na saúde. As startups trazem uma releitura para tudo isso com propostas mais acessíveis e maior foco em prevenção", afirma.

"Em menos de dez ano, teremos um cenário completamente diferente – caso contrário, as empresas gastarão mais com saúde do que com salários", prevê.

MedRoom

A MedRoom aplica a realidade virtual (VR, na sigla em inglês) com estratégias de gamificação para melhorar o treinamento de estudantes e profissionais da saúde e diminuir os custos das aulas práticas de cursos médicos.

Funciona quase como um simulador de vôo: ao mergulhar o usuário em um ambiente realista, proporciona treinamento prático ilimitado.

O CEO e um dos sócios da startup, Vinícius Gusmão, afirma que a aposta do negócio está no treinamento da força de trabalho: a MedRoom desenvolve aplicações para treinamento em saúde com realidade virtual para faculdades, empresas e hospitais.

"Nosso principal produto é o Lab, um laboratório de morfofisiologia em realidade virtual criado para atender as necessidades dos alunos por contato com o corpo vivo. Nós criamos uma paciente virtual para que o aluno possa explorar todos os sistemas e estruturas do corpo humano com aspecto realista", explica. "Quanto melhor treinada for a força de trabalho, menor a quantidade de erros e, consequentemente, menor a quantidade de óbitos originados a partir desses erros."

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O executivo lembra que esta é uma área ainda pouco explorada, com muitas necessidades de melhorias e inovação. Naturalmente, os desafios existem e estão vinculados às validações dos modelos e melhorias de processos. O que está em jogo é alto: "Na área da saúde, você não pode errar. Seus erros podem ter consequências perigosas e colocar a vida das pessoas em risco".

Ecoando outros empreendedores citados nesta matéria, ele destaca que outro ponto importante é "lembrar que saúde não é sinônimo de hospital". "Existe todo um universo fora dos hospitais que pode ser trabalhado e gerar muito impacto."

A curto prazo, ele avalia que a principal transformação das healthtechs está na economia de recursos. Segundo Gusmão, com os aumentos anuais de despesas, o sistema de saúde nacional “tem data para falir”.

"Essas inovações vêm em boa hora e vão colaborar muito para a redução dos custos do sistema como um todo. No médio a longo prazo, a própria forma como estudamos e tratamos pessoas vai mudar e a força de trabalho será melhor qualificada. Tenho uma expectativa boa de que o déficit de profissionais de saúde – principalmente de médicos – vai cair."

Afinando o Cérebro

Por meio de jogos e quizzes em sua plataforma online, a startup Afinando o Cérebro quer desenvolver as habilidades cerebrais envolvidas com o processamento auditivo central, memória, atenção e linguagem em pacientes de profissionais diversos, como fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos e neuropsicólogos.

Assim como outros empreendedores, os co-fundadores Henrique Cerioni, Ingrid Gielow e Diana Faria avaliam que um dos os maiores desafios da área é vencer a cultura do investimento em contenção e não em prevenção, o que gera atenção e foco de investimento em soluções paliativas e não definitivas.

"Uma das pesquisas realizadas pela Universidade de Campinas com a Afinando o Cérebro mostra a relação entre falha de processamento auditivo e defasagem escolar. Ou seja, a atenção na saúde hoje pode minimizar um problema social amanhã", analisam.

A chegada das startups de saúde, segundo o trio, trouxe "solução ou atualização da solução de problemas de saúde, antes relegados ao governo ou à iniciativa de grandes empresas".

E entre as características típicas de startups destacadas que mais têm impacto está a rapidez na aplicação e a distribuição acessível de soluções, além da possibilidade de atingir um objetivo bem específico de mercado.

"O modelo startup é favorecido pois permite o desenvolvimento a partir de demandas específicas de nichos – muitas vezes não observados ou não interessantes para os players existentes", afirmam.

CUCO Health

Desde 2015, a CUCO Health oferece soluções para melhorar a experiência de saúde na vida das pessoas. "O objetivo da CUCO é ser a melhor plataforma de engajamento de pacientes do Brasil, sustentado pelo nosso propósito de transformar a experiência do paciente ao realizar um tratamento médico", afirma a CEO Lívia Cunha.

Para ela, há duas grandes vantagens para as startups entrarem no setor:

  • A cadeia é bastante fragmentada, com muita oportunidade em cada parte
  • O fato de que a entrega na área da saúde está geralmente relacionada à vida das pessoas

Lívia aponta que, do lado do paciente, há espaço e demanda por soluções diversas: fácil acesso a serviços de saúde, cuidado digital e monitoramento remoto, compra de medicamentos, gestão de saúde preventiva e opções alternativas a serviços de planos de saúde, entre outras. Do lado dos pagadores, há muita oportunidade também, que vai desde a gestão interna das organizações até ao relacionamento com os pacientes.

A CEO acredita que uma healthtech tem de vencer barreiras culturais para começar a ter relevância no setor, e isso geralmente se faz por nichos. "É o caso da CUCO, que se especializou em engajamento de pacientes, da Memed como plataforma de prescrição médica, da iClinic como software de prontuário, Beep, Docway e Dr. Já como marketplace de serviços de saúde", exemplifica.

"Cada uma tem um papel fundamental no setor e, atuando juntas, causarão a transformação necessária em uma cadeia tão fragmentada como é a da saúde", finaliza.

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Sobre o autor
Udacity Brasil

A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.