25 de jul de 2018

As startups que focam em tecnologias contra o envelhecimento

Udacity Brasil

Você já ouviu falar nos mamutes? Eles eram parentes próximos dos elefantes: mamíferos enormes, com pelos grossos sobre a pele, orelhas pequenas e dentes de marfim gigantes ao lado da tromba. Entraram em extinção cerca de 4 mil anos atrás, mas graças aos esforços de uma equipe de pesquisa da Harvard University, eles podem se “desextinguir” num futuro próximo.

Os pesquisadores pretendem usar um embrião de elefante asiático – o animal vivo mais próximo do mamute – e editar seu código genético para torná-lo mais próximo do animal extinto. O projeto, que ainda deve levar alguns anos, é apenas um exemplo relativamente tímido de como as novas tecnologias pretendem mudar até mesmo o ciclo de vida e morte que sempre nos definiu.

Também de Harvard vem uma empresa chamada Rejuvenate Bio, com uma proposta ainda mais ambiciosa: impedir o envelhecimento. Inicialmente, porém, os beneficiados serão apenas cães. Segundo o MIT Technology Review, a empresa já ganhou um aporte do governo dos EUA para aplicar seu tratamento em cães usados pelo exército.

No entanto, a empresa também pretende oferecer um serviço para animais de estimação. O tratamento, que consistirá basicamente de uma única injeção, é voltado para cães pequenos com problemas cardíacos, e promete estender suas vidas por mais alguns anos. E, segundo a empresa, quando a validade da técnica for demonstrada em cães, outros mamíferos – incluindo, eventualmente, humanos – serão os próximos alvos.

Ben Mezrich, autor do bestseller de não-ficção Woolly, fala sobre a equipe por trás das tentativas de ressurreição dos mamutes e o que o sucesso significaria para a natureza

Como a terapia genética pode “impedir” o envelhecimento

Não se trata de uma poção de rejuvenescimento: a ideia da Rejuvenate Bio é usar terapia genética para rejuvenescer células de tecidos específicos de alguns animais. Essencialmente, esse método envolve alterar o genoma dessas células para que elas se revertam a um estado mais jovem, eliminando os problemas que o envelhecimento traz.

A terapia genética pode ser feita de diversas maneiras. Uma delas é usar um vírus criado em laboratório para “infectar” as células desejadas com o novo código genético. Essa mudança, em alguns casos, é suficiente para fazer com que as células “voltem no tempo” e se tornem “jovens” novamente.

No caso dos cãezinhos com problemas no coração, aplicar essa terapia às suas células cardíacas é uma maneira de lutar contra o fator que tem maior probabilidade de matá-los. E rejuvenescer o coração deles traz outros benefícios, como mais energia e ânimo nas brincadeiras.

Mas aplicar esse método a humanos não deve ser tão simples assim. Isso porque nosso corpo é composto por uma variedade imensa de células diferentes – até hoje não se sabe ao certo quantos tipos de células temos – e o nosso envelhecimento é causado por uma enorme quantidade de fatores.

Por isso, segundo o pesquisador João Pedro de Magalhães da University of Liverpool, um dos especialistas ouvidos pelo MIT, “não estamos nem mesmo próximos de reverter o processo de envelhecimento como um todo em mamíferos”.

Nascendo (e rejuvenescendo) com placenta

Mesmo assim, ainda há empresas, principalmente startups da região do Vale do Silício, tentando transformar isso em business pelos meios mais curiosos.

Uma das ideias vem da empresa Celularity, que pretende usar células-tronco retiradas de placentas para rejuvenescer tecidos específicos do corpo, desde recriar órgãos inteiros em pessoas afetadas por câncer até restaurar a aparência, a mobilidade e a percepção da juventude em pessoas mais velhas.

As células-tronco da placenta são pluripotentes, o que significa que elas podem se “transformar” em células jovens de qualquer tipo. E de acordo com a empresa, a célula-tronco placental de qualquer pessoa pode ser colocada no corpo de qualquer outra sem que haja o risco de rejeição.

Dessa maneira, essas células funcionariam como uma espécie de “fonte da juventude” celular. Se você tivesse problemas no coração, fígado, pâncreas ou rins causados por envelhecimento das células do tecido, qualquer placenta poderia conter a cura para todos esses problemas ao mesmo tempo.

Segundo o TechCrunch, a pesquisa da Celularity tem alguns facilitadores: o primeiro deles é o fato de que a empresa é dona do único banco do mundo que recebe doações de placentas, o LifeBank USA. As placentas de bebês recém-nascidos são comumente descartadas como lixo hospitalar, mas a empresa consegue aproveitá-las como material de pesquisa graças a essa parceria.

O segundo deles é o fato de que ela recebeu recentemente mais de US$ 250 milhões em investimentos. O aporte veio de um grupo bastante diverso de investidores famosos no mercado, um dos quais merece destaque: Andrew von Eschenbach, ex-comissário da FDA (Food and Drug Administration), o órgão regulador dos EUA para novos alimentos e medicamentos.

Conheça aqui 5 startups de biotecnologia promissoras

O Vale do Silício busca o “fim da morte”

Mas essa é apenas uma ideia relativamente simples para como lutar contra o envelhecimento usando as novas técnicas de manipulação genética. Há ainda outras, que vão além de retardar o envelhecimento e fazem promessas muito mais ambiciosas, como viver por centenas de anos.

A revista The New Yorker fez uma extensa reportagem sobre alguns dos métodos de empreendedores do Vale do Silício, a maioria dos quais têm pouca ou nenhuma evidência científica capaz de comprovar sua eficácia.

Um deles é a “parabiose”, a transfusão de sangue de pessoas jovens para pessoas mais velhas com o intuito de restaurar a vitalidade dos idosos. O serviço é oferecido pela startup Ambrosia – e já virou piada em Silicon Valley, o premiado seriado americano sobre o cotidiano de startups da região.

No trecho acima, Gavin Belson, CEO de uma companhia que é paródia da Google, utiliza parabiose para manter-se jovem

A parabiose é uma das ideias mais extremas nesse sentido, mas investidores associados a gigantes da tecnologia como o Google e a Amazon estão financiando empresas com a mesma ambição de retardar o envelhecimento – e potencialmente driblar a morte.

A Alphabet, dona do Google, por exemplo, tem a Calico, uma empresa da área da saúde que, por enquanto, divulgou pouco de sua pesquisa. Sabe-se apenas que eles estão monitorando uma população de milhares de ratos de laboratório em busca dos “marcadores” do envelhecimento.

A ideia é entender quais são os fatores que o causam e como combatê-los – e observadores dizem que Sergey Brin, co-fundador do Google, está pessoalmente interessado no resultado.

Por sua vez, Jeff Bezos, o fundador e CEO da Amazon, é um dos investidores da Unity Biotechnologies, empresa que desenvolve remédios para eliminar os efeitos nocivos que células velhas causam ao nosso organismo e promete soluções que aumentem a expectativa de vida em até 35%.

Em termos de ideias, no entanto, há ainda mais variedade. Ray Kurzweil, por exemplo, um diretor de engenharia do Google, acredita que eventualmente a tecnologia chegará num ponto em que nossos corpos se unirão com as máquinas e então acontecerá uma revolução biotecnológica que tornará a morte obsoleta.

Nesse momento, será possível injetar nanorrobôs – máquinas inteligentes de escala molecular – em nossa circulação. Elas poderão tratar cada uma de nossas células individualmente e eliminar doenças antes mesmo de que elas aconteçam.

Em evento da Udacity, Eric Schmidt, ex-CEO da Google, explica por que a genética e biotecnologia são tendências

E até mesmo nossos cérebros poderão se comunicar com eles, permitindo que nossa própria consciência e nossas memórias sejam digitalizadas. Nem é preciso dizer que isso, por enquanto, ainda está muito mais perto de um episódio de Black Mirror do que da realidade – mas interfaces cérebro-máquina já estão sendo pesquisadas.

De qualquer maneira, a lição é clara. Como disse Eric Schmidt, ex-CEO da Google, a intersecção entre genética e tecnologia é um campos mais promissores atualmente – e basta lembrar do CRISPR, uma tecnologia de edição genética muito promissora que apresentamos aqui.

“O que se faz com genética para entender evolução, nossa suscetibilidade a doenças e condições genéticas raras é algo profundo”, resumiu Schmidt. Adicione as crescentes capacidades de explorar a vida digitalmente, a vontade constante de inovar das startups e prepare-se para um mundo novo.

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