'Black Mirror' da vida real: saiba que tecnologias da série já existem

Udacity Brasil
10 de abr de 2018

A série Black Mirror, atualmente disponível na Netflix, ganhou notoriedade pelos retratos pessimistas que pinta sobre o futuro da tecnologia. Se por muitos a inovação tecnológica é vista como uma porta para um futuro melhor, na série ela é justamente o oposto: uma ferramenta de exclusão, opressão e controle. Os recursos tecnológicos impressionantes aos quais os personagens da série têm acesso criam, quase sempre, situações de tristeza e distopia.

Pode-se argumentar que o que assusta mesmo – e alimenta tantas rodas de conversa animadas – em Black Mirror não é exatamente a tecnologia, mas o uso que se faz dela. Ainda assim, a série cria uma conexão negativa potente com algumas das novidades que devem aparecer nos próximos anos: em muitos casos, essas novidades estão mais perto do que você imagina.

Abaixo, a Udacity separou 5 exemplos de tecnologias de episódios de Black Mirror que já existem, de uma maneira ou outra, no mundo real. Confira:

5 tecnologias de Black Mirror na vida real

“Nosedive”

Episódio 1 da terceira temporada

Lembra daquele episódio em que as pessoas avaliam cada interação social que tem umas com as outras e sua nota geral determina quais espaços e serviços elas poderão acessar? Pois o governo chinês já têm um plano parecido em curso. Trata-se de um “sistema de crédito social” (SCS) com as mesmas características – e que já está sendo testado por um enorme número de pessoas.

Pessoas com nota baixa nesse sistema são castigadas e não podem entrar em determinados trens ou vôos. Por outro lado, segundo um artigo especial da revista Wired, quem for bem avaliado será recompensada com mais acesso a empréstimos em bancos e enfrentará menos burocracia na hora de assinar contratos de aluguel de imóveis, por exemplo.

Mas o que determina a nota de uma pessoa nesse sistema? Alguns fatores são relativamente compreensíveis: dados de antecedentes criminais e de inadimplência entram no cálculo, por exemplo.

Só que, de acordo com as reportagens citadas, o sistema vai avaliar também a atividade das pessoas nas redes sociais, suas compras online e seu comportamento no mundo real – e quem não estiver dentro dos "conformes" pode entrar na lista negra. Até deixar sua bicicleta estacionada em um local inconveniente poderia diminuir sua nota, segundo a ONG Human Rights Watch.

Por enquanto, só voluntários participam do SCS, mas o governo pretende torná-lo obrigatório para todos os seus cidadãos até 2020 – e já há consultores especializados em ajudar quem quer ter notas mais altas.

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“Hated in the Nation”

Episódio 6 da terceira temporada

Abelhas são essenciais no mundo: se elas deixassem de existir e polinar, a reprodução de muitas plantas deixaria de acontecer e isso poderia colocar em risco toda a nossa cadeia alimentar. Para enfrentar esse cenário, a sociedade retratada no episódio “Hated in the Nation” da série criou seus próprios robôs-abelha para substituir os insetos.

Os criadores do RoboBee, um pequeno robô feito que imita o comportamento de abelhas, provavelmente não viram o episódio. Se tivessem visto, talvez olhassem de outra maneira para sua criação.

Ao longo de uma série de artigos que data desde maio de 2016, pesquisadores da Harvard University e do Massachussetts Institute of Technology (MIT) vem descrevendo os avanços do RoboBee.

Ele não se parece muito com uma abelha, mas pesa só 175 miligramas, tem o tamanho aproximado de um peso de papel e consegue voar. Usando eletrostática, ele é capaz de grudar em paredes e decolar a partir delas.

E pelo menos desde outubro de 2017, já é capaz de fazer algo que as abelhas não fazem: nadar. Com todas essas habilidades, entrar pela orelha de alguém e subir até seu cérebro, como acontece em Black Mirror, não parece estar tão fora de seu alcance.

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“San Junipero” & “Black Museum”

Episódio 4 da terceira temporada e episódio 6 da quarta temporada

Imagine ter sua consciência transferida para um servidor quando seu corpo deixar de funcionar. Essa é apenas parte da promessa da Nectome, uma startup que oferece um serviço que é, em suas próprias palavras, “100% fatal”.

Segundo o MIT, a empresa promete usar uma combinação de criogenia e técnicas químicas de embalsamamento para preservar totalmente os cérebros de seus clientes. Em seguida, assim que a tecnologia estiver disponível, pretende digitalizar suas consciências – e então, se possível, transferi-las para um novo corpo robótico.

Há um pequeno porém: esse processo inevitavelmente mata o cliente. É necessário que a preservação comece exatamente no momento da morte, porque o cérebro começa a se deteriorar assim que alguém morre e isso pode comprometer todo o procedimento.

Por isso, a empresa está oferecendo seus serviços primeiramente a pacientes terminais e exigindo um depósito relativamente módico para quem quer entrar na lista: US$ 10 mil. Já há 25 pessoas na fila.

Dentro desse cenário, depois que a consciência for transferida, as possibilidades são inúmeras. É possível fazer como em “San Junipero” e criar um paraíso virtual no qual elas poderão morar por toda a eternidade (ou ao menos enquanto os servidores funcionarem) ou como em “Black Museum”, que oferece uma série de aplicações menos agradáveis e podem acabar rendendo aos clientes da Nectome uma eternidade de sofrimento.

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“Crocodile”

Episódio 3 da quarta temporada

O momento em que será possível transformar memórias pessoais em filmes para autoridades ou empresas de seguros ainda está bem distante, como acontece em “Crocodile”. Os primeiros passos, no entanto, já foram dados: pesquisadores da UC Berkeley já conseguiram unir modelos computacionais e exames de ressonância magnética funcional capazes de reproduzir imagens a partir de atividade cerebral.

O experimento funcionou da seguinte maneira: voluntários assistiam horas de trailers de filmes enquanto eram monitorados num equipamento de ressonância magnética. Sua atividade cerebral alimentava um programa que aprendia a associar os padrões visuais em questão com a atividade cerebral correspondente.

Um segundo conjunto de vídeos (formado por mais de 5 mil horas de vídeos de YouTube) foi usado para testar esse algoritmo de reconstrução de imagens. O objetivo era entender se o programa poderia prever a atividade cerebral que cada clipe causaria em um indivíduo.

Por fim, os 100 vídeos que o programa considerava mais similares ao vídeo que o sujeito tinha provavelmente assistido eram unidos para "reconstruir" o clipe original e compor uma memória. O resultado pode ser visto abaixo:

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“Metalhead”

Episódio 5 da quarta temporada

Felizmente, ainda não existe um robô assassino implacável como o de “Metalhead”. Infelizmente, os robôs em que a Boston Dynamics vem trabalhando são estranhamente parecidos com ele.

A empresa, que já foi do Google e foi recentemente vendida a um conglomerado japonês, começou como uma prestadora de serviços para o exército americano, mas recentemente mudou de foco para produtos com fins comerciais (um alívio, certamente).

O SpotMini é o robô que mais lembra o “cão” de “Metalhead”. Ele anda sobre quatro pernas, consegue enxergar tudo ao seu redor e é capaz até mesmo de abrir portas mesmo que alguém tente atrapalhá-lo.

Além disso, consegue até segurar a porta para outro robô que esteja vindo atrás – ou que, como no episódio, esteja com a mobilidade reduzida por causa de uma perna quebrada.

Embora o SpotMini seja o robô mais parecido com o que aparece no episódio, ele não é o mais assustador que a Boston Dynamics tem a oferecer. Essa honra fica com o Atlas, um robô bípede que tem capacidades surpreendentes de mobilidade: o último truque que aprendeu foi dar um “mortal para trás”.

E o mais chocante: entre aprender a correr e aprender a fazer esta acrobacia, passaram-se apenas dois anos. Imagine o que será possível em outros dois?

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