A Tesla e seus caminhões autônomos: o que vai mudar nas estradas?

Udacity Brasil
30 de abr de 2018

Em 2016, 2,9 milhões de novos caminhões foram introduzidos na frota global. Parte dele se juntou aos quase 2 milhões que já existiam no Brasil, responsáveis por transportar toneladas de carga país adentro.

Números tão grandes inevitavelmente trazem acidentes pelo caminho: segundo uma pesquisa da Volvo, dos 10,8 mil acidentes que ocorreram em ruas e estradas brasileiras em 2016, 2,6 mil envolveram caminhões.

Com um tipo de transporte tão vital em evidência e tanto espaço para melhoras, era questão de tempo até que a tecnologia causasse uma revolução no pavimento.

Eis que, no final de 2017, o mundo foi apresentado a uma nova geração desses veículos quase de supetão – e empresas de grande porte, como PepsiCo e Anheuser-Busch, já fizeram suas encomendas.

Leia: 'Black Mirror' da vida real: saiba que tecnologias da série já existem

Como funciona o caminhão da Tesla

À primeira vista, sem ter nenhum tipo de informação adicional, você pode até pensar que se trata de um caminhão como outro qualquer, embora um pouco mais bonito.

Mas não se deixe enganar pela aparente simplicidade. Essa máquina é, na verdade, o que já foi inventado de mais moderno em todo mundo o para o transporte de cargas em estradas – e em todos os quesitos supera os caminhões usados atualmente.

Chamado de Tesla Semi, o produto é queridinho de Elon Musk, fundador e CEO da Tesla, a fabricante. Na cerimônia de apresentação do modelo, Musk surpreendeu a plateia ao elencar todas as características da máquina e não poupou elogios à criação.

Não é para menos. Parece coisa de ficção científica: o caminhão da Tesla é elétrico, seguro e não emite nenhum tipo de poluente no meio ambiente. Musk soltou frases de efeito ao longo de toda a apresentação, como: "é um suicídio econômico usar caminhão a diesel" e "o Tesla Semi é incomparavelmente melhor do que qualquer outro caminhão".

O modelo começará a ser fabricado em 2019, mas a empresa já aceitou as primeiras encomendas. O preço inicial ficará em torno de US$ 150 mil.

A novidade conquistou o público de tal forma que grandes marcas já estão na lista de espera do produto, a exemplo da PepsiCo, que encomendou 100 unidades. A Anheuser-Busch (divisão americana da AB InBev), também entrou na fila e espera estrear 40 caminhões em 2019.

Tamanho sucesso entre empresas desse porte tem motivo. Ou melhor, vários:

Combustível

Os caminhões convencionais estão sujeitos às grandes variações de preço do diesel, além de serem muito poluentes. O Tesla Semi pode ser facilmente carregado em totens de energia solar da própria Tesla (a empresa garante que eles estarão disponíveis nas estradas de todo mundo, embora não tenha fornecido detalhes sobre isso). Com apenas em 30 minutos de carga, o caminhão ganha autonomia para rodar até 7 horas seguidas.

Desempenho

Com quatro motores independentes em cada uma das rodas do caminhão, o modelo foi desenhado para ser como uma bala e por isso é muito mais veloz do que os convencionais caminhões movidos a diesel, mesmo quando carrega a carga máxima de 36 toneladas. O Tesla Semi atinge 96,5 km/h em apenas 20 segundos e roda até 800 km sem precisar recarregar a energia.

Conforto: o motorista fica em posição central dentro da cabine, o que garante visão geral da estrada e seu entorno. A cabine é espaçosa, confortável e permite que a pessoa fique de pé dentro dela. Além disso, o caminhão está conectado ao Tesla App, que fornece ao motorista ou ao dono da frota informações completas sobre o caminhão. O app está conectado aos serviços mobile da Tesla, oferece diagnóstico remoto e sugere manutenções preventivas.

Economia

De acordo com Elon Musk, um caminhão comum a diesel custa 20% a mais por cada milha rodada quando comparado ao Tesla Semi.

Leia: Aluno da Udacity conquista emprego na área de carros autônomos

Um futuro com estradas mais seguras

Os pontos mais positivos do Tesla Semi talvez sejam justamente o conjunto de características que ajudam a tornar as estradas e o transporte mais seguros no médio a longo prazo.

Embora o sistema do caminhão vem com um piloto automático de última geração, isso não torna o motorista indispensável. O fato, porém, é que a chance de haver erros humanos são menores dentro do modelo automatizado.

"Uma carga de 36 toneladas se movendo a 96 km/h é algo muito perigoso. Cada caminhão que produzimos vem com um piloto automático capaz de manter-se na faixa correta, avisar com antecedência sobre o risco de colisão frontal e também realizar frenagens de emergência", explicou Elon Musk na apresentação do produto.

Outra habilidade surpreendente da máquina é que ela pode ajudar a salvar vidas. "Se você estiver dirigindo e tiver uma emergência médica, o caminhão continuará na faixa correta e irá parar gradualmente. Ele também telefona para o sistema de emergência e chama uma ambulância se não receber nenhuma resposta sua. Ele cuida de você, dos outros carros e dos pedestres. Isso é um aumento massivo da segurança", comemorou Musk.

Leia: Como veículos autônomos e cidades inteligentes se conectam

A posição central do motorista dentro da cabine também foi pensada para a segurança, porque ela oferece um centro de gravidade mais baixo, permite que o motorista mantenha a direção em caso de acidentes e diminui muito a chance de capotamento.

Soma-se a isso o fato de que o Tesla Semi tem quatro motores independentes em cada umas das rodas. Graças a eles, é impossível que o baú de carga saia do eixo e atravesse a pista (o chamado efeito "L" ou canivete), porque o sistema ajusta automaticamente o torque (esforço de torção) em cada roda. "O maior pesadelo dos motoristas se foi. Nunca mais será preciso se preocupar com isso", prometeu Musk.

As garantias de Elon Musk

A Tesla confia tanto no produto que desenvolveu que garante que o caminhão não irá quebrar por nada – pelo menos não no primeiro milhão de milhas rodadas (ou 1,6 milhão de km), o que seria equivalente a 125 voltas ao redor da Terra. Elon Musk explicou: "mesmo que dois [dos quatro] motores quebrem, você pode continuar dirigindo".

E as vantagens não param aí. Em carros elétricos, os freios podem ser transformados em geradores de energia. Então, cada vez que o motorista aperta o freio, a energia cinética gerada na frenagem vai direto para a bateria em vez de gerar calor e desgastar a pastilha de freio.

Por fim, mas não menos importante: o para-brisa! Imagine um vidro resistente. O do Tesla Semi é mais. Muito mais. Ele é tão seguro que Musk afirma que o material resiste até a explosões nucleares. Em outras palavras, ele não quebra por nada – ou você recebe todo o dinheiro de volta, segundo o CEO.

"Isso é muito importante, porque o para-brisa dos caminhões é enorme e costuma quebrar, em média, uma vez ao ano", disse Elon Musk. "Não é permitido dirigir se o vidro estiver quebrado – o que significa uma situação terrível para o motorista e os clientes. Por isso considero esse detalhe tão relevante."

Conheça: Nanodegree Introdução a Carros Autônomos

O que é tendência nas estradas

Se você acha as ideias de Elon Musk ousadas demais, é hora de repensar o assunto. Um estudo da consultoria multinacional Deloitte aponta que esse é mesmo o futuro do transporte de cargas sobre rodas.

O levantamento apontou que os fundamentos de como mercadorias são transportadas estão prestes a mudar. "Sistemas de segurança sofisticados agora permitem que os próprios veículos eliminem a maioria das causas de acidentes. A indústria de veículos comerciais já está discutindo as oportunidades e riscos que esses novos desenvolvimentos abrem para o setor", escreveu a empresa no relatório.

De acordo com a pesquisa, há ainda muito mais inovações a caminho. A consultoria prevê, por exemplo, que daqui cinco anos para-brisas já terão até sistema de realidade aumentada para mostrar rotas.

A princípio, a Europa e os Estados Unidos tendem a ver as mudanças mais rapidamente nas estradas com a chegada dos caminhões elétricos. Segundo a Deloitte, o Brasil irá levar mais de uma década para incorporar essa nova realidade.

Entre os países do BRICS, a Rússia é a que tem maior potencial para utilizar os novos modelos de caminhões – a projeção é que eles representam até 11% da frota do país no próximos dez anos.

Os concorrentes

Embora o modelo da Tesla seja o mais comentado do momento, há outras empresas se dedicando à criação de caminhões elétricos, como Volvo, Nikola e Emoss. Embora sejam modelos mais simples, já representam um considerável avanço de tecnologia por não emitirem gases poluentes e serem mais silenciosos.

Ou seja, de um jeito ou de outro, estes novos caminhões elétricos autônomos vão mudar como o mundo transporta mercadorias. Em breve, quando se encontrar em um engarrafamento, você vai poder respirar fundo e olhar para os gigantes ao seu redor com novos olhos: talvez aquele caminhão ali na frente seja mais interessante do que parece.

Leia também: