UX e UI: quais são as maiores diferenças entre esses campos?

Udacity Brasil
4 de abr de 2018

Se você tem qualquer interesse pela área de design (ou trabalha em uma empresa que tenha), já deve ter ouvido falar em UX e UI, termos sempre pronunciados em inglês.

Essas siglas meio obscuras, que surgiram na chamada “economia digital”, se referem a processos importantíssimos para garantir que os usuários de serviços e aplicativos consigam interagir com eles da melhor maneira possível.

Mesmo assim, ainda existe alguma confusão quanto ao que cada um desses profissionais faz. Não é à toa: esses dois cargos, apesar de suas diferenças, têm uma série de exigências em comum.

Se você tem qualquer interesse em um dia trabalhar em uma dessas áreas, ou mesmo com aplicativos de maneira geral, é uma boa ideia ter um pouco de clareza sobre cada um desses trabalhos.

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O que significam as siglas?

User Interface (UI)

UI é a abreviação de “User Interface”, ou “interface do usuário”. Os designers de UI são os responsáveis por dar aos apps, sites e serviços que você usa a cara que eles têm.

Isso significa escolher as cores e a tipografia a ser usada no site, o formato e o posicionamento dos botões, menus e links, garantir que cores semelhantes tenham funções semelhantes e que tanto a versão desktop quanto a versão mobile do serviço sejam reconhecíveis como edições diferentes de um mesmo serviço, por exemplo.

São milhares de decisões pequenas que, quando somadas, são responsáveis pela impressão visual que temos de uma marca ou aplicativo. Pense nos apps que você costuma usar: Netflix, Facebook, Twitter, LinkedIn, entre outros: cada um deles tem uma identidade visual particular, que o torna imediatamente reconhecível.

O trabalho do designer de UI é, de certa forma, garantir que essa identidade visual seja positiva e marcante para o público-alvo do serviço.

Mas as interações com um serviço desse tipo vão muito além de aspectos meramente visuais.

Por exemplo, considere uma loja virtual: a facilidade de encontrar um produto, informar os dados do cartão e o endereço de entrega dele e confirmar o pagamento é um fator tão importante para o usuário quanto a “beleza” do site. E é nesse ponto que entra o UX.

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User Experience (UX)

UX é a abreviação de “User Experience”, ou experiência de usuário. Os designers de UX vão além do aspecto visual do site, serviço ou aplicativo para garantir que ele seja simples, intuitivo e, se possível, até divertido de se usar.

De acordo com o Fast Co. Design, os designers de UX são as pessoas que dizem coisas como “devemos mostrar uma página de agradecimento quando o usuário terminar de se cadastrar”.

Nas palavras de Tiago Furquim Moraes, um UX Designer que já trabalhou para a agência Isobar, o designer de UX é “o cara que advoga pelo usuário” junto à empresa na hora de tomar decisões.

Ou seja: ele tenta imaginar como será o comportamento de uma pessoa usando aqueles recursos (às vezes com a ajuda de pesquisas junto ao público-alvo), e se esforça para fazer com que essa interação seja satisfatória para a pessoa.

Uma boa experiência de usuário é essencial para qualquer empresa que queira se destacar no mercado de serviços digitais. E parte dessa experiência é, justamente, o aspecto visual. Afinal, se o aplicativo for horrível, usá-lo dificilmente será uma experiência agradável.

Por isso, Tiago considera que o UI está contido no UX. Ou seja: a interface é uma parte (bem importante) da experiência do usuário.

O Career Foundry explica as competências dessa área com um exemplo curioso de boa UX: uma banana. Ela vem com uma capa protetora que permite que ela seja levada sem problemas, e a capa ainda muda de cor para indicar quando ela está adequada para consumo.

Acima, Richard Fulcher, UX designer sênior do Google, fala sobre seu trabalho

Duas competências, um objetivo

Entendendo as siglas, já é possível entender também que os dois trabalhos, embora próximos, exigem especializações diferentes.

Segundo Tiago, os designers de UI são, “em geral, pessoas que vêm do design gráfico”, mas não necessariamente.

Por sua vez, a área de UX acaba atraindo uma diversidade ainda maior de talentos: “Vejo até mesmo desenvolvedores e pessoas das áreas de marketing e sociologia trabalhando nessa área”, diz.

Isso porque o trabalho do UX acaba sendo um pouco mais amplo. Tiago dá o exemplo de sua experiência trabalhando em um projeto para a Fiat: antes de mudar a interface dos serviços da empresa, eles faziam um protótipo, testavam-no com alguns usuários e se atentavam para o feedback deles.

Por exemplo: se os usuários não compreendem um texto, o UX dá esse retorno aos redatores. Se um botão que deveria ser clicado muitas vezes é clicado poucas vezes, pode ser um problema de baixo contraste e então esse retorno vai para a equipe de UI.

Mas é o profissional de UX o responsável por organizar essa pesquisa e orientar os profissionais envolvidos no trabalho a melhorar o serviço, segundo as opiniões dos usuários.

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Interação constante entre as áreas

Às vezes, é necessário fazer um esforço muito coordenado entre as duas áreas para garantir que o usuário receba o melhor resultado possível.

Um exemplo dado por Tiago é a hora de garantir que os sites para PC e mobile sejam ambos parecidos e fáceis de usar. Fazer isso, no entanto, exige o uso de técnicas de design muito diferentes de cada uma das áreas.

Pense no caso do preenchimento de um formulário, por exemplo: no computador, é melhor carregar todos os campos em uma tela. Mas no celular, o melhor é mostrar apenas um campo por vez e permitir que o usuário avance um por um até chegar ao fim.

Essa é uma decisão de UX, mas cabe ao designer de UI garantir que esses dois formulários sejam igualmente agradáveis e reconhecíveis como de uma mesma marca ou produto.

Um possível acúmulo de funções

Empresas menores e startups muitas vezes acabam tendo um único profissional que acumula as funções de designer de UX e de UI. Nesse caso, exige-se uma pessoa mais generalista.

“Ela tem que fazer a pesquisa, conversar com o usuário, conversar com o cliente e também tem que por a mão na massa”, explica Tiago.

Segundo ele, há vantagens e desvantagens nesse arranjo: por um lado, é bom porque uma pessoa concentra todas as informações, e isso evita falhas de comunicação entre quem tem o retorno do cliente e quem precisa resolver o problema.

Mas como os trabalhos se concentram em uma pessoa só, os resultados acabam passando pela opinião de uma pessoa só também: mais pessoas talvez fossem capazes de identificar problemas na interface e no fluxo dos usuários mais facilmente.

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Mercado de trabalho

Segundo Tiago, tanto UX quanto UI são duas áreas com um mercado de trabalho promissor. Além de já serem relativamente estabelecidas no mercado – ou seja, seu potencial de agregar valor já é bem compreendido pelos recrutadores –, tendem a crescer ainda mais.

Isso porque o poder que uma boa interface e experiência de usuário podem ter nunca esteve tão evidente.

Tome, como exemplo, o Nubank: com uma estrutura bem menor que a de bancos tradicionais, a fintech conseguiu sustentar um modelo de negócio que coloca em xeque as maiores companhias do setor financeiro.

O segredo? Uma ótima experiência de usuário. Enquanto um banco tradicional exige um monte de documentos e visitas presenciais para abrir uma conta, o Nubank não tem nehuma agência.

Pedir um cartão é possível usando apenas um celular e abrir uma conta, clicando em um botão. "É essa diferença de mentalidade que faz com que um Nubank ganhe investimento e outras empresas tenham que correr atrás”, diz Tiago.

Cobranças específicas

E justamente por serem áreas de trabalho estabelecidas, muitas vezes têm demandas bem específicas. “Os clientes já cobram atenção em UX e UI das agências ou profissionais que contratam”, explica Tiago.

Assim, um designer contratado para construir um site pode acabar tendo que incorporar noções de UX e UI ao seu trabalho – o que faz sentido, já que trata-se de competências complementares, mas exige estudo no começo.

Para o futuro, Tiago prevê que a área de UI deve crescer bastante. Conforme as empresas forem tomando mais consciência do valor que esses profissionais podem agregar aos seus serviços, os investimentos devem se tornar maiores.

Quanto ao UX, seu próprio campo, Tiago tem uma previsão curiosa: embora ele acredite que ela deva continuar crescendo no curto prazo, no longo prazo “tende a sumir”.

Ele explica que, segundo sua experiência, a situação de ter uma única pessoa dentro do fluxo de design representando o usuário não faz muito sentido.

“Inicialmente esse cara [de UX] é necessário, mas talvez ao longo do tempo as outras áreas adquiram essa disciplina [de se preocupar com a experiência do usuário], já que todo mundo é meio responsável”, explica.

Mesmo assim, ele acredita que o estudo dos conceitos principais é um saber valioso para qualquer um em um mercado feito de usuários.

Quer saber mais?

Para quem se interessou, Tiago recomenda conhecer as “heurísticas de Nielsen”. Jacob Nielsen e Don Norman foram os designers que cunharam a sigla UX, e as 10 heurísticas de Nielsen funcionam como diretrizes gerais para garantir uma boa experiência de usuário em qualquer serviço.

Elas dizem, por exemplo, que o usuário deve sempre ser informado do estado do serviço (pense na bolinha que você vê girando quando um vídeo está carregando no YouTube) e que um serviço precisa ter consistência entre seus botões (o que quer dizer tê-los na mesma cor e tamanho, posicionados nos mesmos locais da página e fazendo sempre fazer a mesma coisa).

Diretrizes de uso de imagem do Material Design, oferecido gratuitamente pelo Google

Quanto à UI, existem algumas diretrizes semelhantes. Uma delas é o Material Design do Google, um conjunto de diretrizes que o Google criou para auxiliar quem trabalha com aplicativos para celular.

Se você usa apps do Google, como o Maps, o Gmail ou o próprio buscador, já deve estar familiarizado com alguns de seus princípios, como informações destacadas em cards ou animações de movimento para indicar mudanças de estado no serviço.

Por fim, Tiago oferece mais um conselho, útil para muito além dos campos de UX e UI: esteja atento à experiência como um todo. "A falta de consistência vai gerando ruídos na experiência", encerra.