27 de set de 2018

O que quer a Yellow, startup que já acumula mais de 150 mil viagens em SP

Udacity Brasil

Se você é de São Paulo, já deve ter visto elas por aí: bicicletas amarelas com uma cestinha preta na frente e um mecanismo curioso sobre a roda de trás. São as bicicletas da Yellow, startup que tem como objetivo divulgado fornecer mais uma opção para a mobilidade dos moradores de grandes centros urbanos.

A empresa foi fundada em 2018 por Renato Freitas e Ariel Lambrecht, que também foram os fundadores da 99, que gerencia o aplicativo de ridesharing e se tornou o primeiro unicórnio brasileiro, como são chamadas as startups avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares.

Assim como a 99, a Yellow não surge apenas como um produto (no caso, bike sharing), mas como uma materialização da visão que seus fundadores têm sobre o futuro das cidades, da mobilidade urbana e dos espaços públicos.

O que isso significa na prática – e como esse modelo de negócios funciona?

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Como a Yellow funciona?

Qualquer pessoa que baixe o aplicativo da Yellow pode usar as bicicletas compartilhadas – que, diferentemente daquelas oferecidas pelo Banco Itaú, por exemplo, podem ser travadas e deixadas em qualquer local, num sistema dockless.

Isso tem consequências bem práticas: ao acessar o app, você vê no mapa quais bicicletas estão mais perto de você e vai até elas. Chegando lá, usa o celular para escanear o QR code do mecanismo da roda traseira. Isso destrava a roda e permite que você a utilize por quanto tempo quiser.

A empresa cobra um real pelos primeiros 15 minutos de uso, e mais um real para cada bloco de 15 minutos seguinte. Ou seja, se você andar por 20 ou 25 minutos, pagará dois reais.

Segundo Luiz Felipe Marques, o diretor de comunicação da Yellow, essa é de longe a principal fonte de renda do negócio. A Yellow também ganha dinheiro com vendas corporativas (para empresas que queiram oferecer as bicicletas compartilhadas a seus funcionários, por exemplo) e com alguns formatos de publicidade.

“Mas isso é mais para atrair empresas que queiram se aliar aos nossos objetivos”, ressalta Luiz, reiterando que o grosso da receita vem do uso normal das bicicletas compartilhadas por indivíduos.

Para fazer esse modelo funcionar, a Yellow criou uma solução tecnológica que permite acompanhar, em tempo real, a posição e o estado de todas as bicicletas da cidade de São Paulo. Há acompanhamento por satélite, sensores e paineis solares para recarregar os cadeados, entre outras novidades.

“A gente tem um time muito forte de profissionais [trabalhando nessa solução] e se orgulha muito de usar talento brasileiro num momento em que muitos profissionais estão indo para fora”, diz Luiz.

O principal desafio da empresa, no entanto, não é exatamente tecnológico. A questão é coordenar as informações desse sistema com a atuação de suas equipes de rua, que realizam a manutenção das bicicletas e garantem que elas não estejam sendo mal utilizadas.

Esse esforço é essencial, pois segundo Luiz, “o modelo da Yellow só funciona se a gente tiver muita bicicleta disponível – se o usuário sair do metrô e já tiver quatro ou cinco bicicletas perto dele, por exemplo”.

E a empresa vem se esforçando para atingir essa meta, algo particularmente visível se você circula pela zona oeste da capital paulista. Até o final de 2018, a ideia é disponibilizar 20 mil bicicletas compartilhadas na cidade. Até o final do ano seguinte, a Yellow quer colocar mais de 100 mil delas.

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Por que começar em São Paulo

De acordo com Luiz, São Paulo foi a cidade escolhida para dar início ao modelo de operações da Yellow por uma série de motivos. O primeiro deles foi o fato de se tratar de um centro urbano de grandes proporções cuja população já tem, de certa forma, “o hábito das bicicletas”. “Se você tá na rua e vê alguém indo trabalhar de bicicleta, já não acha aquilo tão estranho”, comenta Luiz.

Fora isso, também contribuiu o fato de São Paulo ter muitas áreas planas — é fácil imaginar que o modelo da Yellow, que não tem marcha, não teria tanto sucesso nas colinas de Ouro Preto. E como a cidade já tem uma oferta de ciclovias, fazia sentido começar por aqui.

Outro motivo que levou a empresa a testar seu modelo primeiro na capital paulista foi a demanda. “O problema de mobilidade aqui é gigantesco, e a gente acredita que quanto mais alternativas as pessoas tiverem para se locomover pela cidade, melhor”, comenta Luiz.

De acordo com ele, as bicicletas da Yellow buscam resolver especificamente o problema da “last mile”, ou “última milha”, algo como três quilômetros. É o caso de quem usa o metrô para ir e voltar do trabalho, mas não vive ou trabalha muito perto de estações.

A bicicleta evita que a pessoa pegue mais um ônibus para fazer esse trajeto, economizando dinheiro, desafogando o transporte público e, de quebra, permitindo que a pessoa faça uma atividade física leve pelo caminho.

Com um mês de operação, a empresa já viu que seu modelo “dava muito certo”: foram mais de 150 mil viagens com as bicicletas da Yellow. Ou seja, mais de 5 mil viagens por dia. “Essa resposta nos surpreendeu de uma forma muito positiva”, conta Luiz.

Na cidade como um todo, os números são ainda maiores. Um estudo recente feito pela Secretaria de Mobilidade e Transporte registrou 294 816 viagens em agosto, feitas em cerca de 4500 unidades das cinco empresas credenciadas. É um crescimento de 1047% em relação ao mesmo período de 2017.

Por isso, a Yellow já tem vontade de se expandir para outras cidades brasileiras e latino americanas ao longo de 2019. O foco, por enquanto, é refinar sua operação em São Paulo, dialogando com o poder público e entendendo as necessidades locais.

“Quase todas as cidades do mundo que têm um serviço como o da Yellow fizeram isso num formato que a gente acredita que não é o ideal. As empresas começam a operar e depois vão falar com o governo ou prefeitura para regulamentar o modelo”, comenta Luiz.

Para ele, o diálogo com a gestão pública deve acontecer antes mesmo de que a empresa comece a operar no local – ainda que isso atrase um pouco o lançamento do serviço.

A startup Yellow e a concorrência

Para a Yellow, esse modo de atuar também lhe dá confiança de que poderá encarar qualquer concorrência que der as caras no Brasil – e já há concorrentes de peso olhando nessa direção.

Uma delas é a Mobike, uma empresa chinesa de bicicletas compartilhadas sem estação. Ela já está presente em mais de 200 cidades no mundo, e vem lentamente ensaiando uma entrada em São Paulo também. Atualmente, a empresa já tem presença na capital paulista, mas ainda não oferece suas bicicletas por aqui.

“Confiamos muito no trabalho que estamos realizando. É muito difícil para outro player chegar do nada com o alcance e a estrutura que a gente chegou em São Paulo”, comenta Luiz. “Mas se jogar limpo e for responsável, será muito benvindo."

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Um serviço semelhante ao da Yellow (e que concorre com ela) começa a aparecer na forma de patinetes elétricos compartilhados. Segundo um artigo do G1, há empresas interessadas em oferecer veículos desse tipo, uma febre nos EUA, e estão prestes a começar a operar.

A própria Yellow oferece alguns patinetes desse tipo, mas em espaços fechados. E o motivo para isso é justamente o fato de que os patinetes, diferentemente das bicicletas, ainda não serem regulamentados por leis de trânsito.

“Por enquanto, a gente oferece só em estações privadas. Quando for hora de deixar os patinetes pela calçada, vamos precisar regulamentar antes”, comenta.

Na visão dele, qualquer empresa que pretenda oferecer esse serviço precisa arcar também com a responsabilidade de dialogar com o poder público sobre a regulamentação de algo novo – e basta dar uma olhada na batalha legal em curso em cidades americanas para entender que não é assim tão fácil.

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Bicicletas compartilhadas, cultura brasileira e o futuro das cidades

Quem já conversou sobre as bicicletas compartilhadas por aí já pode ter ouvido uma pergunta do tipo "será que vai dar certo ou elas vão ser quebradas, roubadas e por aí vai?". Isso porque, para muita gente, a ideia de qualquer tipo de serviço baseado no compartilhamento público de objetos está fadada ao fracasso.

A natureza pública desses objetos — quaisquer que sejam — faria com que ninguém os respeitasse e tratasse bem, o que geraria um custo excessivo para a empresa responsável pelo serviço. E esse custo, por sua vez, inviabilizaria a operação da empresa.

Na visão de Luiz, essa opinião não poderia estar mais errada e os números que a Yellow já tem são suficientes para demonstrar isso. “Quando um serviço desses tem mais de 150 mil viagens no primeiro mês, já mostra que o país adota muito bem o modelo”, diz.

Isso posto, há sim casos de furto ou depredação das bicicletas que a Yellow disponibiliza para seus usuários. O número de casos desse tipo, no entanto, estão dentro do que a empresa já esperava antes de começar a trabalhar em uma cidade de 12 milhões de habitantes.

Luiz também ressalta que a startup não “passa pano” nos casos em que suas bicicletas são indevidamente apropriadas ou propositalmente danificadas. Segundo ele, a Yellow está trabalhando junto com o poder público e aplicando punições quando são cabíveis. “Se por um lado essas situações são a exceção, por outro não podemos deixar de tomar as medidas cabíveis."

Trata-se de uma espécie de aprendizado, de acordo com o executivo, o que é um dos principais objetivos da empresa.

O primeiro é melhorar o trânsito. “A cidade tem lugar para todos os modais e quanto mais opções o cidadão tiver, melhor. Acreditamos que para trajetos curtos em regiões planas durante um horário de pico, a bicicleta é a melhor opção”, afirma.

O segundo objetivo da Yellow, que segue na mesma linha, é mudar a relação das pessoas com a cidade. “As cidades foram feitas em cima de encontros. Claro que, ao longo do tempo, um pouco disso se perde – tudo que vira lugares de passagem, como pontes e marginais, em que o encontro acaba se perdendo. Mas acreditamos que, como empresa, conseguiremos trazer o encontro de volta."

Num tom mais pessoal, Luiz comenta que as previsões para o futuro costumam “acertar o problema mas errar a solução”. Os Jetsons, por exemplo, tinham carros voadores. “O pessoal já imaginava que o trânsito seria um problema, mas achava que a solução para isso seriam os carros voadores. E de repente a solução é a bicicleta algo que já existe há séculos”, considera.

Em outras palavras, ele imagina que as soluções para os problemas da atualidade podem ser mais simples do que normalmente se imagina. E se orgulha do trabalho da empresa. “A gente prova que o modelo funciona e se orgulha de passar longe da discussão de que 'o Brasil não é a Holanda'. O país merece uma solução legal assim”, finaliza.

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Sobre o autor
Udacity Brasil

A Udacity, conhecida como a "Universidade do Vale do Silício", é uma plataforma online e global que conecta educação e mercado para ensinar as habilidades do futuro – de data science e marketing digital à inteligência artificial e desenvolvimento. Hoje, há mais de 7 mil alunos ativos no país e 50 mil pelo mundo.